As tribos têm
crescido assustadoramente nos últimos anos
nos centros urbanos, por motivações das mais
variadas. A maioria dos jovens se une por um
gosto musical, que acaba por refletir no
estilo que a tribo adota, tanto na roupa
como até mesmo na atitude deles em relação à
sociedade. É o caso dos punks que usam sua
forma de expressão para contestar o modo de
vida consumista que caracteriza ao mundo
contemporâneo.
Muitas dessas
tribos surgiram da necessidade causada pelo
crescimento do individualismo nos últimos
tempos. Isso fez com que quem não estivesse
satisfeito com esse isolamento procurasse em
outras pessoas descontentes a afinidade
necessária para poder desenvolver-se
socialmente. Esse fato é mais marcante nos
adolescentes, que carregam esse sentimento
de vazio diante do mundo e sentem a
necessidade de integrar-se com outros para
ascender individualmente.
É o caso de
Marcelo Ferrasin, 21 anos, participante de
uma tribo há nove, sem conseguir definir,
porém, o nome da mesma: “Não sei rotular
direito, talvez do rock, heavy, progressivo,
hard-rock”. Para ele é bom, pois há a
convivência com outras pessoas que ouvem as
mesmas músicas e gostam mais ou menos das
mesmas coisas. “Na maioria da vezes vamos
ver bandas, tocar, beber juntos, sair a
barzinhos. Mas mesmo que seja algo não
relacionado a música acaba entrando no
assunto”, conta.
No entanto,
um dos problemas apresentados está no
aspecto consumista que muitas dessas tribos
possuem em suas características. Muitas
vezes para contestar o atual modo de vida
capitalista estes encarnam o estilo
consumista para questionar as benesses
disso. Só que acaba por ser de uma forma
contraditória com os “princípios” escolhidos
dentro do grupo. O estilo das roupas, bem
como as imposições colocadas como regras, se
mostram incompatíveis com o objetivo
inicial. Acontece que essa busca por um
objetivo se configura na aceitação do modo
de vida atual.
Acontece que
nessa busca os grupos se fecham em si, não
aprendendo com o que vem de fora. Essa
completa segregação de grupos distintos e
fechados se torna improdutiva a partir do
momento que não há uma troca de valores
culturais. Há sim uma rivalidade que, em
muitos casos, como na cidade de São Paulo
durante a década de 80, as brigas eram
comuns e constantes entre os diversos
grupos.
Se hoje essa
rivalidade ferrenha aparentar ter diminuído,
isso fica no âmbito das pancadarias nas
metrópoles, pois o preconceito e a completa
indiferença delas em relação às outras é
latente e as separa ainda mais. Outro fato
importante está no preconceito por parte de
cidadãos não pertencentes a nenhuma turma
desse tipo. É o caso da estudante Mariana
Elias, ouvinte eclética que demonstra sua
insatisfação com essa forma de expressão de
maneira até certo ponto raivosa: “Odeio isso
de tribo, não tem nada a ver, sem objetivo.
Parece que eu tenho que estar numa”,
reclama. Já Micael Nagai, um fã de todos os
estilos, aponta algo polêmico: “Eu acho que
se uma pessoa ou grupo fizer algo diferente
da sociedade elas sempre irão sofrer
preconceito por alguém ou por uma outra
segmentação da sociedade”, afirma.
O
interessante é o que diz o tradutor
Guilhermo Gumucio, um “sem tribo”: “Não
costumo me juntar a um grupo por causa de
uma característica específica apenas. Tenho
amigos que têm um gosto cultural
absolutamente diferente do meu. Mas no final
o que resta é a essência, a pessoa mesmo”,
acredita. O que fica claro que a motivação
inicial por se unir a uma “tribo” recebeu
outros ingredientes, como estilo, sentimento
de proteção, amizade, submissão, ou mesmo
união em torno de determinado ideal.
Tribo é
conseqüência
O fato dos
jovens buscarem cada vez mais grupos que
tenham gostos semelhantes com os seus revela
a formação de uma identidade que pretende
ser diferenciada aquilo que foi aprendido
com os pais durante a infância. Mesmo assim,
é preciso cuidado e orientação dos
familiares para que esses grupos não
interfiram de forma negativa na vida desses
adolescentes que tem um mundo de novidades
pela frente e estão aprendendo a discernir.
E para
explicar um pouco melhor sobre o assunto
conversamos por correio eletrônico com a
psicóloga e psicoterapeuta, Olga Inês
Tessari, que nos fala sobre as causas dos
jovens buscarem grupos externos à sua
família para se relacionarem. Confira a
entrevista na íntegra.
Site
Padre Marcelo Rossi – Por que os jovens têm
a necessidade de se juntar em grupos?
Olga Tessari:
Quando somos crianças temos por hábito
acreditar piamente em tudo o que os pais nos
dizem e afirmam e o nosso modelo de mundo é
aquele que os pais nos apresentam, seria
algo como enxergar o mundo através dos olhos
de nossos pais, sob a ótica deles. A fase da
adolescência é o momento em que o jovem
constrói a sua própria identidade e sai em
busca de seus próprios valores e modelo de
mundo e, para isso, ele precisa deixar de
lado ou negar os valores/conceitos/modo de
vida de seus pais, que tinha até então.
Seria algo como negar todos os valores que
aprendeu até este momento, os valores que
são de seus pais ou das pessoas com quem ele
tem convivência: quem nunca viu um jovem
dizendo que seu pai é "careta" e não sabe de
nada ou mesmo aquele jovem calmo e
tranquilo, que acatava todas as ordens e que
agora passa a contestar e discutir cada
palavra e ordem de seus pais? Faz parte da
fase da adolescência estar em grupo: é nessa
fase da vida que os jovens formam os seus
próprios valores e decidem o que "querem ser
quando crescerem". Nesta fase da vida vale a
pena experimentar de tudo até para poder
decidir o que é o melhor para si mesmo. Como
ele ainda não tem a sua identidade
totalmente formada, ele procura andar em
grupos de iguais para sentir-se integrado,
para experimentar novos valores, conceitos,
ideias, modos de ser, etc.
Site Pe.
Marcelo – O que significa para esses
adolescentes a identificação com um
determinado tipo de tribo, como dos
metaleiros, punks, clubbers, pagodeiros,
etc.?
Olga Tessari:
Não é porque o jovem se integra a um
determinado grupo que ele vai ser como estes
membros do grupo a que está integrado. Como
disse, muitas vezes ele precisa experimentar
e fazer parte destes grupos, o que lhe
permite aprender novos valores, questionar
seus conceitos até concluir se estes valores
são importantes ou não para ele. Todos
podemos observar jovens fazendo parte de
grupos que nada tem a ver com eles, mas faz
parte desta fase de vida a experimentação.
Vale dizer que, se o jovem é de uma família
repressora, certamente, ele fará parte de um
grupo X até para contestar seus pais: por
exemplo, se ele vem de uma família que
abomina pagode ou rock, é bem capaz que ele
passe um período de tempo sendo pagodeiro ou
roqueiro, apenas para contestar seus pais.
Site Pe.
Marcelo – Como os pais devem encarar esse
tipo de situação?
Olga Tessari:
Quanto mais os pais proibirem o jovem de
estar em determinado grupo, mais ele terá
vontade de transgredir a ordem de seus pais.
Nesse momento, é importante que os pais
dialoguem com os filhos, mostrando o quanto
é bom ou ruim para ele estar em determinado
grupo, mas é importante que eles deixem para
o jovem a opção de manter-se no grupo ou
sair dele. Vale dizer que a adolescência
reflete um pouco toda a convivência anterior
que os pais tiveram com seus filhos. Se,
durante a infância onde houve um bom diálogo
familiar, certamente o jovem continuará
dialogando com os pais e colocando suas
ideias e interesses em participar de
determinado grupo, estando aberto a ouvir a
opinião dos pais e questionando com eles o
seu interesse em participar de determinado
grupo, sendo respeitado em sua decisão,
apesar dos pais não concordarem.
Site Pe.
Marcelo – É preciso observar o comportamento
dos filhos para ver se esse tipo de situação
não extrapola para outros aspectos, como
drogas e violência, muito comuns em certos
grupos?
Olga Tessari:
Sim, os pais devem estar atentos ao
comportamento dos filhos e conhecer de perto
os amigos deles. Uma idéia é fazer festas em
casa, levar os amigos para viajar junto com
a família, procurar conhecer os pais dos
amigos, saber onde e com quem os filhos
estão. É claro que os filhos detestam esta
vigilância toda, mas cabe aos pais mostrarem
que confiam em seu filho, mas que precisam
saber com quem eles estão. Vale ressaltar a
importância do diálogo ao longo de toda a
vida em família, fator fundamental para que
os pais possam perceber quando o filho está
se envolvendo com pessoas ligadas às drogas
ou violência e poder orientá-los sem
criticá-los, algo que não surte efeito
positivo, pelo contrário, leva-os cada vez
mais a contestarem seus pais e agirem não
por vontade própria, mas apenas para
transgredir as ordens familiares.
Atualmente os jovens já estão muito bem
informados acerca dos malefícios das drogas,
mas como eles nunca acreditam que o pior
possa acontecer com eles, muitas vezes eles
experimentam mesmo. É comum que jovens
transgridam barreiras e ordens, mas se eles
têm bem a noção dos limites, eles não se
tornarão drogados ou viciados, até porque
existe uma grande diferença entre
experimentar e ser usuário regular de
drogas. Aquele que se torna um viciado,
assim o faz por uma série de fatores tais
como: carência ou excesso de afeto, ou
então, por não saber lidar com os limites
impostos pela sociedade justamente por não
ter aprendido isso em casa. O viciado busca
um refúgio na droga, algo que o deixe ‘fora
da realidade’, justamente porque a sua
realidade é ruim, sofrida, porque ele não
sabe como lidar com ela, algo bem diferente
daquele jovem que apenas experimenta a droga
e depois a deixa de lado porque apenas quis
saber que gosto tem e não para fazer uso
dela por outros motivos. Ele até pode se
sentir pressionado pelo seu grupo para
continuar com o uso frequente, mas acabará
por se afastar deste grupo e buscar outros
que respeitem suas opiniões, se sua
autoestima estiver em alta, algo que se
consegue com o amor, carinho, compreensão,
limites e muito diálogo entre ele e seus
pais.