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Uma das manias que mais afetam o relacionamento familiar é a de limpeza.

Pessoas, principalmente mulheres, que dedicam todo o seu tempo para limpar as janelas, portas, vidros, lustrar móveis, lavar chão, podem estar perdendo o controle, com algum descuido em suas vidas que podem indicar doença.

A psicóloga e psicoterapeuta Olga Inês Tessari aponta que o problema está na pessoa, pois, por mais que se busque a perfeição, "jamais chegaremos a ela, pois a perfeição é uma ilusão". No máximo, o que ela irá conseguir é ficar ainda mais nervosa, pois, para manter a casa arrumada e limpa sempre ninguém haveria de morar nela, sem contar o problema da poeira tomar conta após algum tempo sem ninguém para tirar o pó.

"É saudável querer manter a casa limpa, mas quando a limpeza se torna a prioridade do dia a dia em detrimento de outras atividades, aí se torna um problema", diz.

Cotidiano afetado

Tessari alerta que a mania pode complicar o cotidiano de quem a possui, quando a pessoa deixa de viajar ou de fazer um passeio para fazer faxina, não dá atenção à família, ou mesmo não convive com outros por causa da necessidade de manter tudo limpo, mesmo que a casa já esteja desta forma.

Ela relata um exemplo vivido em seu consultório, por uma paciente que possuía o hábito de limpar as portas da casa várias vezes ao dia, principalmente quando alguém (amigos ou não) as tocava com as mãos.

A mulher acreditava que se não limpasse de imediato, vírus e bactérias invadiriam sua casa e trariam doenças. Ela nem dava atenção à visita, direcionando seus olhos para as portas "sujas", refletindo se ainda daria tempo de limpá-las e evitar que as bactérias dominassem o ambiente.

"Vale dizer que, por não dar atenção às pessoas, elas acabavam por se afastar do convívio e esta senhora se queixava da falta de amigos, de que ninguém lhe dava atenção, embora ela mesma fosse a causadora deste afastamento", conta Tessari.

Problemas são mais profundos

A mania de limpeza não é perceptível para quem a possui, já que sua ação é feita de forma inconsciente. Ocorre que, na verdade, a mania não passa de uma forma da pessoa esconder seu verdadeiro tormento, apontando para a limpeza sua única tarefa, fugindo das dificuldades cotidianas.

E quem nos fala com mais propriedade sobre o assunto é a psicóloga e psicoterapeuta Olga Inês Tessari, que explica até que ponto as pessoas que costumam manter sua casa limpa podem estar próximas de doentes ou não.

Confira os principais trechos da entrevista.


Site Padre Marcelo Rossi – A pessoa que tem mania de limpeza pode ser caracterizada como doente?

Olga Tessari: Nem sempre se pode considerar doente uma pessoa com mania de limpeza. O problema é a intensidade desta limpeza, quanto tempo de sua vida a pessoa gasta com esta limpeza e se ela sempre prioriza a limpeza em detrimento de outras atividades, ou seja, se ela praticamente vive em função de manter tudo limpo.


Site Pe. Marcelo – Esta mania pode estar ligada ao Transtorno Obsessivo Compulsivo?

Olga Tessari: As obsessões e compulsões são comportamentos decorrentes da elevação da ansiedade em níveis acima do normal e aceitável. A pessoa descobre/percebe que o ato/ritual de limpar alivia os sintomas de sua ansiedade de imediato e passa a limpar e limpar no sentido de manter este alívio ou de evitar que sua ansiedade se eleve novamente. Pessoas que sofrem do Transtorno Obsessivo Compulsivo, em geral, costumam ser negativas, culpam-se por tudo o que acontece de errado, pensam que só elas são capazes de fazer o melhor, buscam a perfeição e não admitem errar, vivem preocupadas com a opinião alheia, tem medos e uma ansiedade elevadíssima.


Site Pe. Marcelo – Qual o papel dos parentes que perceberem algo semelhante em sua família?

Olga Tessari: A família acaba por ficar muito irritada com essa mania de limpeza, pois sente-se limitada em seu próprio espaço (por causa de frases como: "não suje", "cuidado, não derrube migalhas", "eu já não falei que não quero que você ande aqui porque vai sujar?", "acabei de limpar, que coisa!" etc...), o que pode gerar conflitos, brigas e um clima muito ruim na convivência. De nada vai adiantar ficar brigando com ela, mostrando a "irracionalidade" do comportamento dela, até porque, como diz o ditado, "santo de casa não faz milagre". A família deve entender que esta pessoa tem problemas que não consegue resolver sozinha e que precisa de ajuda especializada para sair deste círculo vicioso em que entrou e a melhor maneira de ajudar esta pessoa é levá-la para uma avaliação psicológica e posterior tratamento.


Site Pe. Marcelo – Que tipo de orientação pode ser dada para que a pessoa saiba dosar isto com prudência, fazendo a limpeza normal sem tornar isso uma paranóia?

Olga Tessari: Querer ter uma casa em ordem, limpa e arrumada é um desejo de todos nós e que nos traz prazer e satisfação. Mas deixar de viver a vida em função de manter uma casa limpa, deixar de aproveitar momentos únicos por causa da "obrigação da limpeza" é sinal de que a pessoa não está feliz e de bem consigo mesma. É muito importante cuidar de si mesma em primeiro lugar e buscar outros prazeres além do prazer da casa em ordem. Isso me faz lembrar de uma senhora que se atrasou ao fazer o jantar e que foi lavar a louça suja antes de assistir ao último capítulo da novela que acompanhou desde o início. Pediu aos familiares que a avisassem quando a novela iria começar, mas estes mudaram de canal até porque a novela ainda não havia começado. Quando ela terminou toda a limpeza da cozinha, foi para a sala, sentou-se no sofá e percebeu que aquele não era o canal em que sua novela era transmitida. Pediu para mudarem para o canal que transmitia a novela e percebeu que ela já havia acabado! Ou seja, há momentos na vida em que temos que priorizar outras coisas em detrimento da limpeza, pois eles passam e podemos deixar de vivê-los!

Matéria publicada no site do Padre Marcelo por Rodrigo Herrero em 18/06/2005 12:06:00

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