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Filhos de pais separados sofrem mais?

O estigma de que filhos de pais separados sofrem mais, têm menor rendimento escolar, mais problemas emocionais e autoestima mais baixa que os filhos de casais que permanecem juntos tem caído por terra. Existem situações em que as crianças sentem-se melhor com a separação dos pais. No momento da separação há um certo trauma porque nenhum filho quer ver os pais divorciados. Porém, com o tempo essas crianças ganham experiências e sentimentos valiosos, nem sempre vivenciados por outras. A psicóloga, terapeuta de família e de casais do Rio de Janeiro, Maria Cristina Milanez Werner, doutoranda em saúde mental e vice-presidente da Associação de Terapia do Rio de Janeiro, afirma que muitas crianças se sentem aliviadas com a separação dos pais. Mas isso não impede que elas sintam-se frustradas de não terem mais pai e mãe juntos.


"Nos casos em que a situação no lar é insustentável, em que a criança vive no meio de brigas, discórdias, uso de álcool, drogas, enfim num ambiente caótico e amedrontador, ela sente alívio quando termina e fica longe de tudo isso", afirma. A psicóloga acredita que é necessário desmistificar a visão maniqueísta do bem e do mal absoluto. Ou seja, quando se trata de comportamento nada é 100% bom ou ruim. "O fato é que toda vez em que há uma separação ocorre a morte da família original e no imaginário dos pais e das crianças o casamento e a família são para sempre." O que acontece atualmente, segundo a psicóloga, são separações menos traumatizantes, mas não sem traumas. Ela diz que antigamente, passava-se uma idéia de que todos os filhos de pais separados eram infelizes e isso, no seu entender, não é verdade. "É como no processo de adoção. É inegável que antes da generosidade, afeto e amor gerado pela pessoa que adota a criança houve uma rejeição. Uma coisa boa não exclui a presença de algo nefasto, ruim", diz.


Todas as crianças querem ver os pais vivos, juntos e se possível felizes. Quando isso não ocorre elas criam uma ordem de eliminação, por exemplo: "Bom, já que eles não estão juntos ainda bem que pelo menos estão vivos e felizes", pensam. Com a separação dos pais, o primeiro benefício gerado na criança é sair do ambiente desfavorável de desamor e por vezes hostil e de brigas. Em seguida, vem a ampliação do convívio com novas pessoas e ambientes, já que os pais retomam antigas amizades. Além de laços familiares mais amplos. "Da classe média para cima, por exemplo, os outros familiares, como avôs e tios, costumam se tornar mais presentes na vida da criança. E na classe social mais popular a rede de apoio oferecida a essas famílias aumenta", afirma.


Com o divórcio também renascem duas outras famílias mono parentais (chefiadas por apenas uma pessoa). De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cada ano, 200 mil crianças vêem seus pais se separar nas regiões metropolitanas do Brasil. Nas salas de aula, a paridade de crianças de lares unidos e separados é bem dividida, o que faz com que as crianças não se sintam excluídas ou diferentes umas das outras. Contudo, já existem situações em que filhos de pais que moram juntos sentem-se diferentes. Com 21 anos de experiência, a psicóloga de São Paulo, Olga Inês Tessari, conta que já recebeu em seu consultório relatos de crianças que se sentiam mal por terem pai e mãe casados.


"Não podemos generalizar, mas atualmente a separação já é bem mais freqüente", diz. Ela afirma que o ideal para a criança é que pai e mãe se relacionem bem, independente de estarem casados ou não. "Costumo brincar ao dizer que os dois podem até se matar, desde que longe das criança. Ao mesmo tempo, não precisam ser falsos, pois os filhos percebem." Olga ressalta que toda e qualquer pessoa necessita sentir que alguém a ama e a admira, mesmo com todos os defeitos que ela possa ter e é por isso que a criança deve sentir-se e ser amada pelos pais.


Estado emocional tem mais peso que o civil

Um casal com filhos que decide se separar deve tomar alguns cuidados com eles. Um deles, é deixar claro às crianças que o conflito é entre os parceiros e não com os filhos. Outro é informá-los que apesar da separação, o amor e a relação de pai e mãe irá continuar. Para a separação dos pais ser o menos traumática possível para os filhos é necessário que seja tratada em particular e nunca na frente deles. A psicóloga Olga Inês Tessari diz que é natural das crianças querer resolver o problema dos pais ao presenciarem uma discussão. "Elas não sabem qual dos dois devem apoiar e isso as deixa confusas, além de sentirem-se culpadas, mesmo não sendo", afirma. Passado o momento da separação em si, homens e mulheres devem manter um relacionamento amigável para o bem dos filhos.


Segundo a terapeuta de família e de casais do Rio de Janeiro, Maria Cristina Milanez Werner, as crianças que apresentam dificuldades emocionais, baixa autoestima ou problemas na escola são aquelas que não têm uma estrutura familiar saudável. "O que produz o desenvolvimento delas não é o estado civil dos pais, mas o estado emocional deles ou daqueles que as criam", afirma. Atualmente, os filhos de pais separados mais ganham do que perdem se analisados os aspectos comportamentais. Um deles é o amadurecimento precoce que a maioria dessas crianças desenvolve. Maria Cristina diz que esse amadurecimento ocorre porque a criança fica exposta a conteúdos que não estaria sujeita se os pais estivessem casados. Ela não considera esse amadurecimento de todo ruim, pois afirma que esses filhos aprendem a lidar com diversas situações emocionais e quando adultos se tornam mais estáveis.


Na minha opinião, ruim é viver mal. Claro, que o ideal é a criança viver num lar com dois adultos, sejam eles heterossexuais, homossexuais, juntados ou casados. A biologia, a sociedade e os costumes pedem isso. Agora, se não é possível viver bem com o outro, o melhor é ficar sozinho. Muito melhor uma única pessoa sadia mentalmente, que duas desestruturadas para cuidar de uma criança", afirma. Já para Olga, dependerá de que grau e de que modo será esse amadurecimento. Ela cita como exemplo um casal que se separa quando o filho tem entre 11 e 12 anos de idade. "Há garotos que tentam assumir o papel do homem da casa, às vezes as próprias mães os obrigam a isso.


Se esse pré-adolescente começa a trabalhar e ao mesmo tempo tem de estudar fica sobrecarregado e isso dificulta seu desenvolvimento emocional e escolar. Na cabecinha desse garoto, ele se tornou mais importante, pois se sente mais macho. Contudo, estará pulando uma fase importante da vida e certamente em algum momento, futuramente, a desenvolverá tardia e erroneamente", afirma. Essas mesmas dificuldades também ocorrem com as meninas, mas de maneira diferente. Outro ponto criticado pela psicóloga Olga Inês Tessari diz respeito aos pais que usam os filhos para fazer chantagem contra o outro. "As crianças, pré-adolescentes e adolescentes não devem ficar entre os pais, muito menos levar e dar recados. Os pais, mesmo que separados, devem se tratar cordialmente e de maneira adulta", diz.


Para Olga, é importante os pais saberem que é a visão que as crianças têm sobre o amor conjugal que define a capacidade delas de amar. "Por isso, não é a presença física de um pai ou mãe que estabelecerá o modo como eles desenvolverão essa capacidade." É mais valioso passar meia hora junto do filho com qualidade do que ficar com ele o dia inteiro sem acrescentar nada. A premissa de que a qualidade é superior à quantidade é muito adequada para o relacionamento entre pais e filhos. No dia-a-dia e principalmente numa separação é essencial a demonstração de amor aos filhos. Porém, as especialistas ressaltam que os extremos são sempre muito ruins. "Falta ou excesso de amor prejudica o crescimento da criança. Os limites devem ser impostos mesmo durante a separação", diz Olga Tessari.


Ela comenta que os pais, neste caso os homens, por vezes se sentem culpados por estarem fora do lar, por exemplo, e tentam compensar essa ausência com concessões, atenção e presentes, sempre de forma exagerada. "A criança que é criada sem limites, aquela que tem e pode tudo, sofrerá muito na vida adulta e provavelmente não irá suportar os limites impostos pelo mundo, pela vida." Maria Cristina enfatiza que os pais devem mostrar o significado e o porque a vida de seus filhos mudou, e dizer-lhes que ela voltará a se reestruturar, possivelmente, para melhor. Ela diz que os filhos precisam se adaptar às mudanças e essa adaptação também é muito favorável a eles, porque podem desenvolver resiliência, que é a capacidade de resistir às dificuldades. "Com o tempo se torna uma pessoa melhor e capaz de lidar bem com as adversidades da vida", afirma.


A psicóloga carioca avisa que os filhos de pais unidos também irão desenvolver suas capacidades em todos os sentidos, principalmente em relação à vida, porém paulatinamente, de forma mais lenta. Maria Cristina enfatiza que os filhos de pais separados sofrem no momento da separação e depois ganham uma cancha (experiência) para a vida extraordinária. As duas psicólogas deixam claro que não são a favor da separação dos parceiros, a menos que seja necessário. "Dentro de uma família, a criança sempre se sentirá mais amada e aceita. A família é a célula-mãe da sociedade, o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas, onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu emocional", diz Olga Tessari.

Quatro coisas que os pais nunca devem fazer:

:: Falar mal um do outro para o filho

:: Usar os filhos como espiões para saber da vida do outro

:: Fazer chantagens ou usá-los como moeda de troca. Por exemplo: "Você não vai ver seu filho enquanto não depositar a pensão"

:: Discutir na frente das crianças

Quatro coisas que os pais devem fazer, sempre:

:: Falar e ouvir seus filhos

:: Ter bom senso

:: Impor limites

:: Amar seus filhos, independente da situação em que se encontra o relacionamento amoroso

Orientar para os novos relacionamentos

Novos relacionamentos surgirão na vida dos pais e os filhos precisam ter consciência disso. Os pais, portanto, devem explicar-lhes que pai e mãe são para sempre e que apesar de separados continuarão a amá-los. Maria Cristina Milanez Werner, terapeuta de família e de casais do Rio de Janeiro, diz que o novo par da mãe ou do pai precisa estar ciente que não irá substituir qualquer um dos dois. "Ter a pretensão messiânica de substituir a mãe ou o pai causará sofrimento. Isso poderá acontecer a menos que um deles, a mãe ou o pai, seja completamente inoperante e ausente. Pai e mãe sempre terão o espaço deles."


Já a criança precisa saber e aceitar que adultos precisam de outros adultos para conviver. No princípio, é possível que os filhos sintam raiva do novo companheiro, mas precisam saber que o pai e a mãe necessitam refazer suas vidas social e afetiva, conforme explica Maria Cristina.


Ela afirma que à medida que a convivência entre eles avança, os filhos tendem a se adaptar e muitas vezes aprender e até amar os novos parceiros dos pais. Um dica de Maria Cristina às pessoas que namoram ou são casadas com pessoas que já têm filhos é não deixá-los muito donos da situação. "Os novos parceiros devem ter muito cuidado para não se meter entre o antigo casal e na vida dos seus filhos, a menos que sejam solicitados a isso. Mas, ao mesmo tempo não podem permitir que o filho se sinta todo poderoso e dono da situação. Uma nova namorada do pai passar para o banco de trás do carro, por exemplo, porque o adolescente é acostumado a andar desse jeito com a mãe, é um absurdo. O banco da frente é para adultos", afirma. A psicóloga Olga Inês Tessari lembra que os filhos também ganham quando uma nova família se cria. Ela cita que irmãos podem nascer, avô, avó, tios e demais familiares se duplicam. "Tanto o pai quanto a mãe não devem se esquecer que o maior papel deles consiste em apoiar, compreender e dialogar sempre com seus filhos, independente de estarem bem ou não entre si." (R.F.)

Matéria publicada no Diarioweb em 13/2/2005 por Renata Fernandes

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