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Pedofilia

Pedofilia agride ser humano

  

 

*Entrevista com Dra Olga Inês Tessari

 

*o texto está registrado de acordo com a Lei de Direitos Autorais

 

Publicada no site do Padre Marcelo por Rodrigo Herrero em 2004

 

 

 

 

* Veja indicação de leitura de outros textos no final da página *

 

 

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) existe para protegê-los, a sociedade reprova os atos contrários, as pessoas possuem discursos longos e severos contra a prática de pedofilia. Mesmo assim, a cada dia que passa o número de casos registrados eleva-se e crianças e adolescentes se perdem em meio aos abusos cometidos pelos adultos.



A pedofilia refere-se à atração sexual de crianças e adolescentes. A classificação internacional das doenças classifica a pedofilia como um dos transtornos de preferência sexual e uma doença quase que exclusiva dos homens. O indivíduo deve ter mais de 16 e ser cinco anos mais velho que sua vítima para se caracterizar o caso.



Para se ter uma idéia, desde 1997 a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção a Infância e à Adolescência (Abrapia) possui desde 1997 um telefone para denúncias sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, através do número 0800-99-0500. Entre fevereiro daquele ano e o mesmo mês de 2003, foram registradas 55.706 ligações, com 5.070 definindo-se como denúncias corretas. Desse total, 63% consistem em abuso sexual e 37% em exploração sexual. No caso do abuso, 40% acontecia fora da família, mas 60% verificou-se dentro da família (pai, padrasto, tio).



E é na família que são contadas as piores histórias. É o caso de Cristina (nome fictício), 17, que começou a ser abusada sexualmente por seu pai com oito anos de idade. Ela relata que seu pai costumava abusá-la das mais variadas formas quando não havia ninguém em casa e dizia que ela não devia contar para ninguém, senão ele ia deixar de gostar da filha. 



Cristina conta que na adolescência ela passou a fugir dos desejos do pai, porém ele começou a bater na moça e ameaçá-la, caso contasse para sua mãe. “Eu achava tudo aquilo (sexo) muito nojento, tentava não fazer. Eu tinha muito medo do meu pai e do que ele fosse capaz de fazer comigo, por isso acabava consentindo e fazendo”, conta.



Seu pai não a deixava sair de casa, ter amigos. Até que um dia, uma amiga de sala que achava estranho o comportamento de Cristina – tão apagado e sempre com alguma desculpa para não passear com as colegas – notou uma mancha preta no corpo da garota  e fez Cristina contar toda a história. Ambas levaram o caso até a orientadora da escola que tentou ajudar e acabou por mudar o rumo daquela jovem.



“Minha mãe não acreditou em nada do que a orientadora disse, dizia que eu era uma vagabunda e que ficava tentando o meu pai. Ela me botou para fora de casa, fui morar com minha tia que também achava que eu era a culpada. As pessoas da família toda me olhavam esquisito, eu queria morrer”, diz Cristina.



Essa situação é comum, segundo a psicóloga e psicoterapeuta Olga Tessari, pois os familiares costumam omitir-se ao problema e defendem o adulto. “A família deveria ser totalmente solidária à criança, uma vez que ela é um ser em formação ainda, que não sabe se defender e que muitas vezes ainda nem tem idéia definida do que seja sedução ou sexualidade”,considera.



Após o episódio, Cristina fugiu de casa e rumou para São Paulo para tentar vida nova, até que encontrou uma mulher que lhe deu assistência, moradia e a encaminhou para uma psicóloga para tentar superar esse trauma. “Não consigo namorar, pois tenho muito nojo que alguém encoste em mim. Morro de inveja de minhas amigas”, coloca.



Tessari afirma que essa aversão ao sexo oposto é algo também normal de acontecer na vítima de pedofilia, que passa a ver o sexo como um ato repulsivo. “Um tratamento psicológico é fundamental para que a pessoa reveja suas crenças e conceitos a respeito da sexualidade, aprender que sexo é algo que faz parte da natureza humana e que pode sim trazer muito prazer”, acredita.



Outra recomendação da psicóloga é que a vítima seja afastada do convívio familiar, pois, as crianças “dificilmente” retornam à família e optam por iniciar uma nova vida. “Vejo que minha vida tomou um rumo totalmente diferente por causa disso tudo e acho que todas as meninas que passam por esse problema devem denunciar sem medo das conseqüências, porque eu sei o sofrimento que elas passam com o pai que não está sendo um pai de verdade”, finaliza Cristina.



Nota da Redação: A pedido da entrevistada, seu nome, bem como o local onde tudo aconteceu foram omitidos da reportagem.

 

É preciso coragem

Para entender a pedofilia é necessário compreendê-la sob vários pontos de vista, desde o agressor até o da vítima, passando pela família, que muitas vezes se omite nesses casos e vai contra a criança que sofre o abuso sexual.


Com esse objetivo entrevistamos a psicóloga e psicoterapeuta Olga Tessari, que vai esmiuçar em detalhes o que acontece com a pessoa violentada e as conseqüências disso em seu desenvolvimento. Ela também explica se há relação de um pedófilo com sua infância e dá um recado a quem já foi vítima disso. Confira os principais trechos da conversa feita por email.

 

 

Site Padre Marcelo Rossi – O que leva uma pessoa a abusar sexualmente de uma criança/adolescente?

Dra. Olga Tessari: As explicações para este tipo de comportamento são várias: pode ser uma pessoa que apresenta uma dificuldade em relacionar-se sexualmente com adultos, que se sente insegura e ansiosa diante desta situação e que, na relação com as crianças sente que tem o controle e o poder em suas mãos. Muitas vezes, a figura da criança tem um valor emocional muito grande para o agressor e ela satisfaz algumas de suas necessidades psicológicas, como por exemplo, sua imaturidade emocional, sua baixa auto-estima, seu desejo de ter o controle sobre suas mãos, etc...

 

Site Pe. Marcelo – O fato de um adulto vir a cometer isso pode ter ligação a algum trauma quando criança?

Dra. Olga Tessari: Alguns pedófilos  foram vítimas de abuso sexual em sua infância e aprenderam, erroneamente, que este tipo de comportamento traz prazer para o adulto. Então, quando eles se tornam adultos, eles supõem que seu prazer sexual será maior e mais intenso se mantiverem relações com uma criança.

 

Site Pe. Marcelo – Por outro lado, a pessoa que sofre isso na infância pode vir a ser um pedófilo na maioridade?

Dra. Olga Tessari: Nem toda pessoa que sofreu de abuso sexual na infância torna-se um pedófilo na idade adulta. Pelo contrário, na maioria dos casos, crianças que sofrem abuso sexual e não tem seu desenvolvimento sexual de forma natural e saudável  são adultos com muitas dificuldades em manter relações sexuais ou mesmo de confiar nas pessoas de uma forma geral, tornando-se pessoas inseguras e muito ansiosas, sempre fugindo de situações onde possam estar a sós com alguém do sexo oposto.

 

Site Pe. Marcelo Rossi – E quando esse abuso ocorre dentro de casa, por um padrasto, tio, pai, etc?

Dra. Olga Tessari: É muito comum a mãe não acreditar que o seu marido seja um pedófilo e incutir a culpa do ato do marido na criança, como se ela houvesse provocado este adulto para o ato sexual.  Em geral, quem denuncia o pedófilo é um vizinho ou um amigo que percebe o comportamento estranho da criança.

 

Site Pe. Marcelo – Há alguma forma de perceber isso?

Dra. Olga Tessari: É importante estar atento ao comportamento da criança diante de seu pai, tio, etc. Se ela evita de ficar perto desses homens ou mesmo tem uma expressão de medo diante deles, deve-se ficar atento e tentar fazer o flagrante quando pai e filha estiverem a sós. Muitas vezes a criança começa a chorar quando a mãe vai sair, implora que ela fique em casa, tem um comportamento desesperado quando percebe que vai ficar sozinha com o homem. 

 

Site Pe. Marcelo – É possível superar tal trauma?

Dra. Olga Tessari: É difícil porque, se a criança não pode confiar em seus pais, vai confiar em quem? Mas o tratamento psicológico é fundamental e na medida em que ele avança, a criança/adolescente vai superando este trauma e consegue chegar a ter uma vida normal. É importante que o tratamento seja feito até o final, mesmo que seja longo.

 

Site Pe. Marcelo – Qual recado que você pode dar a uma adolescente que tenha sofrido abuso sexual?
 

Dra. Olga Tessari: Não tenha medo de denunciar a pessoa que abusou sexualmente de você, ela é uma pessoa doente e precisa de tratamento e você é a vítima, embora sua família possa dizer o contrário, que você é a culpada de ter seduzido a pessoa! Você vai passar por maus momentos a princípio, mas no final, vai agradecer a si mesma por se livrar do fardo de se sujeitar aos caprichos de uma pessoa insana.

 

 

 


 


Dra Olga Inês Tessari

Autora dos livros: "Dirija sua vida sem medo" e "Amor X Dor"

- Escritora - Pesquisadora - Palestrante - Supervisora - Mediadora de Conflitos -
- Desenvolve e ministra cursos, palestras, workshops: projetos específicos para empresas e grupos -
- Consultora Comportamental em temas da Psicologia para a mídia em geral -
- Especialização em Psicologia das Emergências e Desastres -

- Professional & Life Coach -

Psicóloga e Psicoterapeuta desde 1984 (CRP06/19571), atua nas áreas de ansiedade, autoestima, medos, timidez, pânico, estresse, depressão, insegurança; orientação de pais; problemas específicos da criança, do adolescente, da mulher, do homem, da terceira idade, do casal e da família; situações de emergências e desastres. Mediadora de conflitos dos problemas e dificuldades nos relacionamentos em geral (do casal, dos pais com os filhos, entre amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho, etc), sempre buscando a qualidade de vida das pessoas. Trabalha também com equipe multidisciplinar com os distúrbios da alimentação (obesidade, compulsão, bulimia, anorexia). Atendimento e aconselhamento de adolescentes, adultos, pais, casais, grupos e famílias inteiras em seu consultório, on line ou em domicílio.

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