O chão.
Carros, postes, prédios, pessoas. Uma
variável de coisas atrapalha a visão e causa
vertigem numa mente confusa. O canto do
cisne se aproxima e o corpo cai. Lamentos,
lágrimas e perguntas ficam no ar: o que
aconteceu para ele se matar?
É preciso
estar atento para as várias formas em que os
desejos suicidas podem surgir. Uma pessoa
desorientada, só, deprimida, infeliz, pode
ter este tipo de comportamento, que pode ser
diminuído ou radicalizado, dependendo do
relacionamento dessa pessoa com a sua
família, amigos, sociedade. Os cuidados com
esses casos são intensos e merecem um melhor
conhecimento.
Em entrevista
concedida por
email,
a psicóloga Olga Tessari contou ao
Site do
Padre Marcelo Rossi os
motivos que levam uma pessoa a querer se
matar e o que precisa ser feito para fazer a
pessoa desistir dessa idéia, sendo vital a
atuação da família para ajudar a pessoa com
tendências suicidas.
Site Pe. Marcelo Rossi - O que leva uma
pessoa a cometer suicídio?
Dra. Olga Tessari:
A conduta suicida, na verdade, é uma
tentativa desesperada de solução de um
problema, embora seja uma alternativa
inadequada. Ela acontece depois de várias
tentativas de solucionar o problema (de
todas as maneiras possíveis e imagináveis
para ela), não tendo encontrado nenhuma
solução. Seria algo como a última saída para
solucionar o problema. Em geral, a conduta
suicida está presente nas pessoas que
padecem de depressão, alcoólicos ou
dependentes químicos e se agrava se houver
sintomas psicóticos.
Site Pe. Marcelo Rossi - Existe algum fator
genético ou psicológico que já predispõe a
pessoa a cometer este ato?
Dra. Olga Tessari:
Não há pesquisas conclusivas que mostrem que
o suicídio seja algo genético. Existem
alguns fatores que podem colaborar para a
tendência ao suicídio:
- o fato da pessoa ser impulsiva, não pensar
para agir, não medindo a conseqüência de
suas atitudes;
- a baixa capacidade ou mesmo a dificuldade
para resolver problemas;
-
pensamentos, atitudes e objetivos
derrotistas ou inadequados;
- fatores
ambientais: problemas sócio econômicos,
solidão, doenças crônicas.
Site Pe.
Marcelo Rossi - O que deve ser feito para
demover o suicida dessa idéia?
Dra. Olga Tessari:
É importante saber ouvir o suicida e saber
dele os motivos que o levam a querer acabar
com a sua própria vida. Não o critique, nem
adote uma postura crítica ou moralista. Após
ouvir, propor e analisar, junto com ele, as
dimensões do problema que ele está
enfrentando e buscar as possíveis
alternativas. Aquele velho ditado de que
duas cabeças pensam melhor do que uma vale
neste caso. Mas sempre de forma a ajudar e
jamais querer impor nada para ele.
Site Pe.
Marcelo Rossi - A depressão é o primeiro
passo para o suicídio?
Dra. Olga Tessari:
Não necessariamente, embora seja um fator
agravante. Na depressão a pessoa sente-se
como se estivesse sem saída para nada, não
se sente em condições de fazer nada, fica
prostrada. Então, como não age e não
consegue agir, pensa que seu caso não tem
solução e começa a arquitetar seu suicídio
como única forma para fugir de todos os
problemas insolúveis. Vale dizer que a
autoestima das pessoas depressivas é muito
baixa, o que colabora para que ela se sinta
incapaz de fazer qualquer coisa.
Site Pe.
Marcelo Rossi - Há como perceber se uma
pessoa está com desejos suicidas?
Dra. Olga Tessari:
Existem alguns indícios que podem alertar
para o fato da pessoa chegar a ter intenções
suicidas, embora não sejam fatores
determinantes:
- uma pessoa
que vive solitária, que foge de qualquer
convívio social, que vive cabisbaixa,
fechada em si mesma, que recusa convites,
que prefere ficar trancada em seu quarto ou
em seu mundo;
- uma pessoa
que vive num meio familiar que não propicia
a convivência e o diálogo;
- comportamento agressivo;
- doenças
crônicas;
- dores
fortes e insuportáveis provocadas por alguma
doença;
- depressão;
- alcoolismo;
- usuário de drogas ilícitas;
- psicoses.
Site Pe. Marcelo Rossi - Qual o papel da
família numa pessoa que se encontra com
desejos suicidas?
Dra. Olga Tessari:
É fundamental a participação da família! Em
geral, pessoas com tendências suicidas vêm
de famílias onde inexiste o diálogo, a
convivência. Muitas vezes, os pais são
críticos, autoritários e não admitem serem
questionados, não estão abertos a dialogar e
a entender que seu filho cresceu, que este
filho pode ter idéias e pensamentos
diferentes dos seus e que deve ser
respeitado.
Site Pe. Marcelo Rossi - O suicídio é mais
comum ocorrer nos jovens?
Dra. Olga Tessari:
Ele pode ocorrer em qualquer idade. Tudo vai
depender dos fatores acima apontados,
embora, hoje em dia, em função da
proliferação do uso de drogas ilícitas, o
número de jovens com tendências suicidas
esteja em ascensão.
Site Pe.
Marcelo Rossi - Há alguma diferença entre
uma pessoa que resolve cortar os pulsos e
uma outra que fica em cima de um prédio
apenas ameaçando se jogar?
Dra. Olga Tessari:
Muitas vezes, estas atitudes representam um
grito desesperado de dizer para as pessoas o
quanto tem sido difícil e insuportável
conviver com a realidade que ela está
vivendo, de mostrar o seu sofrimento e da
necessidade que a pessoa tem de querer ser
ajudada: seria algo como um pedido de
socorro! Tanto que, quando a pessoa toma
tais atitudes, ela "espera" a ajuda. E,
infelizmente, talvez esta seja a única forma
de fazer com que as pessoas a sua volta
prestem atenção nela e vejam o quanto ela
tem sofrido. Se houvesse mais diálogo e
convivência familiar, certamente ela não
precisaria recorrer a estas atitudes tão
drásticas.