Tem gente que
trai uma vez, sente a culpa e nunca mais
repete o erro. Já outras pessoas fazem do
ato um estilo de vida. Tudo por debaixo dos
panos, é claro, porque infidelidade requer
muita discrição, isto é, mentiras - ou, no
mínimo, muitas omissões. Pois bem, alguns
conseguem distinguir um tipo de traição de
outra e, às vezes, é possível até relevar.
No entanto, há quem não suporte ouvir a
palavra T-R-A-I-Ç-Ã-O - ui, dá até arrepio!
Quanto mais da boca do parceiro, se o danado
se acusar. Agiu sem pensar? Caiu em
tentação? Tudo bem, todo mundo erra, todos
têm seus dias ruins, a gente pisa na bola,
mas, se foi de caso pensado, se o "crime"
foi planejado nos mínimos detalhes... Aí,
sai de baixo, é só uma questão de tempo até
a farsa ser descoberta e o circo pegar fogo.
E pega!
Susana Martins*, agrônoma, já foi vítima do
"cúmulo da cara-de-pau", como ela mesma diz.
"Meu casamento não estava indo muito bem,
sei disso, mas daí a descobrir que o seu
parceiro te trai com a vizinha, inclusive
nas escadarias do prédio, é fogo. E eu fui a
última a saber, porque o porteiro já tinha
pego os dois no flagra, mas não me contou
nada. Depois, meu marido, agora ex, veio
confessar o que ele chama de ‘culpa', mas
não acreditei que existisse um pingo de
consciência pesada ali. Marcar um encontro
quase todo dia com a vizinha, ao meu ver,
não é coisa de impulso, é caso pensado
mesmo. Isso não perdôo!", revolta-se Susana,
que armou o maior barraco no prédio, com
direito a cenas clássicas de filmes e
novelas. "Cortei, sim, as roupas dele,
joguei coisa pela janela, quebrei vaso. Na
hora da raiva, a gente faz loucuras", admite
a agrônoma.
Os homens são
educados a não desperdiçarem nenhuma chance
de demonstrar sua masculinidade e
sexualidade. Por isso, a tolerância com a
traição masculina sempre foi maior do que
com a feminina. Mas o mito ainda presente é
de que os homens traem mais. Será?
E para quem
pensa que só mulher é traída, homem também
sente dor na testa. Gustavo Rebelo*, gerente
de vendas, que o diga! A ex-namorada o traiu
com... o ex! E, ao que parece, a coisa toda
foi muito bem planejada. "Ela me disse que
ia viajar com as amigas, mas omitiu que no
pacote estava incluído o ex-namorado", diz
Gustavo. "Quando voltou, me confessou tudo,
entre lágrimas e soluços. Disse que os dois
já tinham comprado as passagens há meses,
reservado um quarto de casal no hotel e que
ela só tinha feito isso porque estava
confusa e precisava passar uns dias com ele
para colocar os sentimentos no lugar", conta
o gerente de vendas, que ficou arrasado.
"Meu chão caiu. As mulheres acham que, só
porque somos homens, vamos agüentar o
tranco, mas não é bem assim. Elas próprias
são muito machistas e esquecem de que
ninguém tem coração de pedra", indigna-se
Gustavo.
Freud
explica
Para a
traição, não existem justificativas, mas sim
motivos já bastante conhecidos que levam a
trair: necessidade de autoconfiança,
vaidade, insatisfação no relacionamento,
carência, aventura, status, vingança, trair
para ter certeza que ama, porque a grama do
vizinho é mais verde, pela sensação de
liberdade, poder, perigo. São infinitos os
motivos, mas a antropóloga e professora da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) Mirian Goldenberg, autora de
Infiel: notas de uma antropóloga
(Editora Record), prefere ressaltar os
culturais. "A cultura brasileira estimula a
infidelidade. De acordo com a minha
pesquisa, os homens se inserem no quadro de
machistas, galinhas e infiéis. Mas a questão
é que tanto eles quanto as próprias mulheres
acreditam neste modelo de masculinidade e
acabam por reforçá-lo", explica Mirian.
O sexólogo,
terapeuta sexual e diretor do ISEXP
(Instituto Brasileiro Interdisciplinar de
Sexologia e Medicina Psicossomática), Celso
Marzano, faz dessas as suas palavras, e
acrescenta: "Os homens são educados a não
desperdiçarem nenhuma chance de demonstrar
sua masculinidade e sexualidade. Por isso, a
tolerância com a traição masculina sempre
foi maior do que com a feminina. Mas o mito
ainda presente é de que os homens traem
mais. Será?", diz Celso.
Segundo a
psicóloga Olga Inês Tessari, sim,
aparentemente quem trai mais é o homem, "Mas
as mulheres estão se tornando mais
independentes e, por isso, o número de
traidoras vem crescendo bastante". Já para
Celso Marzano, o sexo dito frágil passou a
assumir uma postura diferente em relação à
sua expressão sexual. Portanto, ninguém está
livre do pecado: homens e mulheres estão,
ambos, sujeitos a puladinhas de cerca.
Mas, de
acordo com Roberto Andrade*, contador, elas
são mais infiéis. "Se não traem mais, são as
mulheres, pelo menos, que planejam mais.
Homem vai por impulso, sabe? Nem pára para
pensar e, quando vê, já está na cama com
outra sentindo a pior culpa do mundo. A
gente perde o sono, tem crises com a nossa
consciência e, se traímos de novo, juro, não
é nem pelo prazer, mas como um consolo para
tanto sofrimento. Mulher não. Faz tudo de
caso pensado. Quando está disposta a trair,
toma banho, se perfuma, se produz e ainda
escolhe o motel. Não adianta nem o marido
trancá-la no armário, porque, quando mulher
quer, sai de baixo, ela te trai até com o
cabide", opina Roberto.
Já Ana
Ramos*, assistente de marketing, acredita
que não é a mulher que trai mais do que o
homem. "É que a mulher, realmente, é mais
discreta. O homem é muito falastrão, trai e
quer espalhar o feito para Deus e o mundo,
contar para os amigos que pegou a gostosa do
trabalho. A mulher não, fica na dela e, se
bobear, nem a melhor amiga fica sabendo que
ela trai o marido, porque, quando a gente
trai, sentimos vergonha do que fizemos. O
sentimento de culpa definitivamente não
compensa o prazer de um beijo nem do sexo",
diz Ana.
Traição?
Ah, normal
Para a
psicóloga Olga Inês Tessari, outra questão
importante é que a instituição do casamento
está mudando. "Se antes era ‘cuidado,
fulano(a) é divorciado(a)', hoje já não tem
tanta importância quem traiu ou quem foi
traído(a). Infidelidade já não é algo tão
condenável", ressalta a psicóloga. O
advogado Mateus Resende* é o típico "traí,
sim, e já fui traído também". "Não que eu
ache legal, mas faz parte, entende? Às vezes
você precisa de uma adrenalina a mais, de
uma emoção mais forte. E também não dá para
beijar, nem fazer sexo, com a mesma pessoa a
vida inteira. É por isso que tenho
relacionamentos extraconjugais e, é claro,
planejo cada passo, porque amo demais a
minha esposa e não quero que ela descubra",
garante Mateus.
"E isso às
vezes é bom", afirma a psicóloga Olga
Tessari. "Encontros fortuitos podem muito
bem servir para fortalecer a relação",
garante. Verdade ou não, o que deixa Mara
Duarte*, administradora, irritada é quando
não há consenso. "Se o casal acha necessário
trair, O.K., ótimo, porque os dois decidiram
assim, mas um não tem o poder de decidir
pelo outro. Foi por essa razão que me
divorciei. O safado chegou a me propor um
swing - troca de casais - sabendo que
sou totalmente contra. Realmente, não dá
para levar a vida com alguém que diz que te
ama de dia e que, à noite, vira o rei da
selva", pondera Mara.
Descobrindo a traição
Primeiro,
faça um rápido diagnóstico da relação.
"Relacionamentos monótonos, que caem na
rotina, sem fantasia e imaginação, são
convites ao adultério. Além disso, pessoas
insatisfeitas ou com a auto-estima abalada e
uma vida sem emoções tornam-se fragilizadas
e, de certa, forma suscetíveis a novas
situações que tragam adrenalina, excitação e
sensações desconhecidas", avisa o sexólogo
Celso Marzano. Segundo ele, se o
relacionamento estiver ruim, com muitas
discussões e agressões verbais, gerando
muita ansiedade e tristeza, a traição também
pode aparecer, nem que só como um pensamento
passageiro na cabeça do parceiro. Daí para
as vias de fato pode ser um pulo.
Se a suspeita
anda te atormentando, chegou a hora de tirar
a prova real. Todo homem ou mulher deixa
pistas pelo caminho da traição, então não
será muito difícil você perceber se está ou
não sendo traída. Basta observar com atenção
o comportamento do parceiro, que facilmente
muda quando ele está sendo infiel. Veja,
agora, as 10 pistas de uma traição, tanto de
homens quanto mulheres. Fique de olho!
- Expressão
corporal: quando a gente mente ou engana,
geralmente o corpo tende a nos denunciar.
Encolhemos os ombros, piscamos muito e
enrugamos a testa.
- Evidências:
marcas no corpo, na roupa e cheiros
estranhos.
- Telefonemas
estranhos, sem explicação ou lógica, e,
quando atendidos, geram nervosismo,
tremores, mudança de tom de voz, ansiedade
evidente e saída do ambiente.
- Mudança de
comportamento e de atitudes no dia-a-dia.
- Mudança no
horário de sair ou de chegar em casa.
- Disfunções
sexuais: podem ter como causa a culpa, dor
na consciência, etc.
- Sugestão,
que não médica, do início de uso do
preservativo.
- Vaidade: do
dia para a noite, começa a passar mais
perfume, comprar roupas novas e se matricula
numa academia.
- Dinheiro:
começa a esconder as contas ou passa a
recebê-las no trabalho para esconder gastos
suspeitos, números de telefone "estranhos"
que chegam na cobrança etc.
- Ele ou ela
se incomoda de ver você muito quieto(a).
Pode ser culpa, medo de que você desconfie
da traição.
Se o seu
namorado ou marido apresentou alguns desses
sinais, não se desespere. Pode ser alarme
falso, mas vale uma investigada! No entanto,
o importante é, acima de tudo, aprender a
dialogar. "O DR (discutir a relação) e o DRS
(discutir relacionamento sexual) assustam,
mas é com o diálogo que se aprende a aceitar
o outro como ele é, encontrando caminhos
para a solução - e mesmo prevenção - de
problemas", finaliza Olga Tessari.
* os nomes
foram alterados a pedido dos entrevistados.
Daniela Pessoa
é nossa correspondente em Paris. Do conforto
de nossa redação, ela saiu para se
aperfeiçoar na língua de Napoleão, enquanto
isso, ela relata para a gente impressões e
notícias da Cidade-Luz