• 04 fev 17

Geração Consumista

Foi-se o tempo em que jovem ganhava mesada e precisava se virar com ela durante todo o mês.

Por: Olga Tessari
  • Geração Consumista

     

     

    Geração consumista – Para muitos jovens comprar é mais que necessidade: vira fonte de prazer e satisfação

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Geração consumista. Foi-se o tempo em que jovem ganhava mesada e precisava se virar com ela durante todo o mês. Bem-vindo à geração consumista.

    Hoje a maioria deles tem cartão de crédito e outros recursos para facilitar as compras. Esse tipo de mordomia, aparentemente inofensiva, pode ter conseqüências perigosas se não for adotada com prudência. Um dos problemas é a formação de adultos irresponsáveis, impulsivos e falidos.

    Em maior ou menor intensidade todas as pessoas são consumidoras, o que não significa que sejam consumistas. Ser consumista é comprar impulsivamente, sem analisar se um determinado produto é necessário ou não. Baseado na busca por satisfação, o “comprar por comprar” acaba levando à aquisição de produtos dispensáveis.

    A cada temporada a moda traz novas tendências que atraem olhares e provocam desejos. Produtos eletrônicos se tornam ultrapassados na mesma rapidez com que surgem. A publicidade está em toda parte e direciona seus apelos especialmente aos jovens, que ganham poder de compra cada vez mais cedo e são induzidos a fazer uso dele.

    As mulheres gastam mais com roupas, sapatos e acessórios. Que o diga a estudante Fernanda Alencastro de Campos, 20, que não perde a oportunidade de comprar sapatos novos. “São minha verdadeira paixão!” Fernanda assume que é bastante impulsiva e que, por isso, acumula produtos que mal foram usados.

    O cartão de crédito que a estudante usa é pago pelos pais, até porque ela estuda em período integral e não pode trabalhar. “Às vezes eles ameaçam tirar o cartão, mas logo passa. Existe uma troca aqui em casa. Se eu for bem na faculdade posso ficar com o cartão”.

    Fernanda acredita que foi influenciada pela mãe. “Ela também é muito consumista”. De acordo com o terapeuta financeiro Reinaldo Domingos, os filhos se inspiram nas atitudes dos pais, que precisam dar bom exemplo e procurar informações para que a criança seja orientada da melhor maneira. “A educação financeira deve começar na infância”. Para ele, o debate sobre assuntos comportamentais, inclusive a relação com o dinheiro, também precisa ser ampliado nas escolas.

    A principal arma das empresas para incentivar as compras é a publicidade. Através dela os produtos ganham alma e características para satisfazer as expectativas humanas. É assim que um Adidas deixa de ser apenas mais um tênis para adquirir toda uma significação.

    Ver uma modelo deslumbrante em uma propaganda de perfume é suficiente para criar nas pessoas o desejo de adquirir o produto e, junto com ele, todo a sensação de glamour vendida pela propaganda. Fernanda Alencastro não esconde que já comprou muita coisa porque viu na revista ou na televisão.

    Há jovens que conseguem consumir com um pouco mais de prudência. É assim com a estudante Tâmara Moreira, 23. Ela adora comprar roupas, sapatos e bijuterias mas não tem vergonha de pechinchar. “Procuro preços acessíveis ao meu salário e não me endivido”. Tâmara gosta de comprar para acompanhar a moda e confessa: “Às vezes me bate aquela vontade de esquecer os problemas e me divertir um pouco, então eu compro”.

    Tâmara trabalha o dia todo e ainda estuda à noite, por isso não tem muito tempo para ver TV ou ler revistas. O que mais desperta seu interesse são as vitrines dos shoppings. Ela confessa que tem dificuldade para resistir e que até recebe broncas do namorado. “Ele vive falando que eu não preciso comprar mais, porque já tenho muita coisa”.

    Quem pensa que consumismo é assunto de mulher está enganado. Segundo a psicóloga e psicoterapeuta Olga Tessari, a competição entre as mulheres apenas favorece o consumo. “Nesse sentido, elas podem consumir muito mais do que os homens, embora eles sejam capazes de fazer dívidas para exibir seu status e comprar bens como um carro do ano, mesmo sem condições para tê-lo”.

    O estudante Elisson Paulo Teixeira, 20, gosta de comprar roupas e equipamentos de informática e leva as marcas em consideração na hora de escolher um produto. Elisson ainda não trabalha, mas acredita que com um emprego aprenderá a se controlar melhor e dará mais valor ao dinheiro. Hoje ele tem um cartão de crédito, que usa com precaução. “Se eu gastar muito, fico sem.”

    Elisson acha que tem um bom controle para comprar as coisas, exceto quando está com outras pessoas. “Sou daqueles que gosta de pagar tudo. Me sinto bem quando posso comprar coisas para mim e para os meus amigos”. Quando não tem dinheiro, ele prefere nem sair de casa.

     

    Gastar com responsabilidade

    O terapeuta financeiro Reinaldo Domingos já lançou dois livros, Terapia financeira e O menino do dinheiro, ambos pela editora Gente. Reinaldo desenvolveu a metodologia Disop, que indica os quatro pilares comportamentais para a independência financeira e que, segundo ele, pode ajudar muitos jovens a gastar com responsabilidade.

    O primeiro pilar é representado pelas letras “DI”, de diagnóstico. Para Reinaldo, o passo inicial é fazer um diagnóstico da própria vida financeira. “Se o jovem não souber com que está gastando, ele terá dificuldades para se organizar”. Segundo o terapeuta, um bom exercício é listar tudo o que ele comprou durante um mês, inclusive as balas e chocolates. Ao final desse período ele saberá exatamente com o que gastou e poderá visualizar o que é dispensável ou não.

    A partir daí é importante definir os próprios objetivos. Este é o segundo pilar. O “S” representa os sonhos, aquilo que a pessoa pretende realizar na vida. Para Domingos, quem não tem um objetivo firmado é manipulado mais facilmente, inclusive pelas mídias. Por isso o jovem precisa saber no que vai aplicar o dinheiro, seja um curso, viagem, faculdade, automóvel ou tantas outras opções.

    Depois disso é hora de definir o destino do seu dinheiro e construir um orçamento. Isso significa identificar as principais atividades realizadas durante o mês e separar quantias para gastar com cada uma delas. Orçar é o terceiro pilar da metodologia.

    Agora é só poupar. Estabelecidos os objetivos, o jovem precisará se esforçar para concretizá-los. Saber quanto é preciso pagar pelo sonho e traçar um prazo para que ele se realize fará com que o jovem tenha uma notação concreta do que precisará poupar. Através desta prática ele também aprenderá a aplicar o dinheiro.

     

    Questão de educação

    A psicóloga Olga Tessari explica que a educação financeira passa pelos limites que são impostos desde os primeiros anos da criança. Os pais devem ser cuidadosos inclusive na hora de dar presentes aos filhos. Há pais que se sentem culpados pela ausência e procuram compensá-la através dos presentes. Dessa maneira eles desvalorizam o ato de presentear. “Essas crianças serão adultos que só se sentirão felizes se tiverem algo novo todo dia”.

    Para Olga presentes devem ser dados apenas em ocasiões específicas. Os pais também precisam estipular uma mesada e ensinar o filho a administrá-la. Dar dinheiro extra não é bom. “Para que a criança aprenda, os pais não devem fazer concessões: acabou o dinheiro, pode chorar à vontade. Aguarde a próxima mesada!”

    Se o jovem gasta demais, provavelmente é porque os pais lhe deram liberdade para isso. Então a primeira providência deve ser cortar as regalias, especialmente os cartões de crédito, e dar ao filho uma mesada fixa. Os pais devem ser firmes nessa decisão e não podem se sentir culpados.

    Antes de dar um cartão de crédito ao filho os pais precisam ter certeza de que ele está consciente do que tem em mãos e que saberá usá-lo com responsabilidade. O cartão deve ter um limite determinado, para que o jovem possa se organizar a partir dele.

    O consumismo exagerado pode se transformar em um problema psicológico. Existem pessoas que não dormem pensando na roupa que deixaram de comprar e voltam à loja no outro dia. Atitudes como essa escondem distúrbios emocionais. De acordo com Olga Tessari, o consumismo precisa ser tratado psicologicamente quando a pessoa começa a sofrer por causa dele, chegando a prejudicar a si própria e àqueles que estão próximos a ela.

     

    Matéria publicada no Jornal A Gazeta MT – Caderno Zine por Larissa Cavalcante em 07/09/2008