• 25 dez 16

Casamento: conto de fadas

Casar é uma garantia de viver o tão esperado final feliz e para sempre?

Por: Olga Tessari
  • Casamento – Ainda um conto de fadas

     

    Entrevista com Olga Tessari

     

    Sonhos! 

    Na opinião da psicóloga e escritora Olga Tessari, ainda há mulheres que se casam para escapar da pressão familiar ou para ter uma vida mais estável – caso de garotas de origem humilde que se unem a homens abonados, por exemplo. Entretanto, desde pequenas, elas estão acostumadas a escutar histórias sobre príncipes em cavalos brancos, amores eternos e castelos luxuosos. Nos contos de fadas, o casamento aparece como a garantia de viver o tão esperado final feliz. As histórias são antigas, mas até hoje servem como inspiração.

    Para Olga Tessari, o principal motivo que leva moças com menos de 25 anos a jurar amor eterno ao parceiro seria, justamente, encarar o casamento como ponto alto de todas as conquistas da vida. “Por incrível que pareça, boa parte das mulheres ainda acredita que a felicidade plena se consegue com o casamento”, reforça Olga. “Infelizmente, elas buscam viver em função do seu homem.” Inebriadas pelo chamado Complexo de Cinderela, moças que teriam outras formas de conseguir a tão almejada liberdade se rendem aos encantos do casamento idealizado. “Elas acabam desejando uma cerimônia com toda a pompa, justamente por considerar esse momento o ápice de sua felicidade”, explica a psicóloga.

    Além dos apelos das empresas casamenteiras, Olga destaca a educação recebida dentro de casa e a cobrança do meio social como os dois outros fatores que mais influenciam na decisão de casar cedo. O que poderia ser considerada uma forma de nadar contra a corrente torna-se, então, um paradoxo. “Hoje em dia a sociedade aceita um pouco melhor a mulher independente e solitária, embora ainda cobre dela o seu papel de esposa e mãe”, compara.

    Existiria, então, uma idade considerada ideal para casar? A resposta é relativa. “O casamento deve ser cogitado depois que a jovem já tenha vivido e tido várias experiências na vida”, diz Olga Tessari. Antes de se comprometer, conhecer pessoas novas, viajar para lugares diferentes e manter os amigos próximos – enfim, aproveitar a vida de solteira – pode dar mais segurança antes de tomar tal decisão. “Jovens que se casam cedo deixam de viver muitas coisas. Depois vão querer resgatar o tempo não vivido”, reforça Olga Tessari.

     

    O preço da independência

    Em dezembro de 2004, Fernanda da Silva Dias iniciou um casamento que duraria cinco anos. Na época, a hoje técnica em enfermagem tinha 18 anos e o ex-marido, 23. “Casei só no civil, mas entrei com a papelada aos 17, com autorização dos meus pais”, detalha. A decisão de trocar alianças foi por amor. Hoje, porém, aos 23 anos, Fernanda analisa e encontra outros motivos para a união. “Eu tinha certeza que queria casar porque gostava dele”, reforça.

    Mesmo ainda tão jovem, Fernanda não encontrou resistência por parte da família. Na verdade, a própria família foi um dos motivos que a impulsionaram a sair de casa e a constituir a sua própria. “O casamento foi uma maneira de fugir da vida que eu tinha”, confessa. Assim como muitas garotas de sua idade, Fernanda queria mais independência. Mas ela deixa claro: se sentia presa, mas não queria ser livre apenas para se divertir ou namorar. “Eu queria estudar, ter uma carreira”, explica. “Quem me educava não dava essas oportunidades.”

    Com o casamento, a tão sonhada oportunidade apareceu, em forma de apoio do então companheiro. Dividir os gastos da casa por dois também ajudou. Com marido e mulher empregados, a vida profissional de ambos progrediu – sucesso que seria mais complicado atingir, caso algum dos dois optasse pelo voo solo.

    Contudo, com o tempo, o companheirismo se transformou em cobrança e em uma nova prisão. “Um relacionamento tem que ser uma via de mão dupla. No nosso, só os desejos dele valiam, eu não vivia a minha vida”, conta. O casal se distanciou, as brigas tomaram conta da rotina e Fernanda procurou ajuda na terapia, para tentar entender o que teria causado tamanho desentendimento entre os dois. No início deste ano, saiu o divórcio.

    O casamento se foi, mas a experiência de vida ficou marcada para sempre. Mesmo com tantos conflitos, será que valeu a pena? “Quando as duas pessoas se dão bem, é muito bom ter alguém para poder contar quando você precisa”, diz Fernanda. Ainda assim, ela é categórica: não quer mais saber de casamento tão cedo. “A palavra casar pesa muito. Você pode até estar morando com uma pessoa há um tempo, mas, quando casa, parece que você está com ela por obrigação.”

     

    Matéria publicada no site do Diário de Pernambuco em 24/08/2010