• 14 jan 17

Compras e dívidas

Comprar demais pode ser um transtorno que necessita de tratamento!

Por: Olga Tessari
  • Comprador Compulsivo e Dívidas

    Saiba quando dever é uma doença

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Viver cronicamente endividado pode estar ligado à baixa autoestima, dificuldade de lidar com emoções negativas e não saber dizer “não”. Saiba diferenciar o hábito ruim do comportamento compulsivo.

    Quanto tempo você está disposto a esperar para construir seu caminho e realizar seus sonhos? Nunca foi tão fácil conseguir crédito no mercado. Então, por que esperar, se é possível comprar parcelado, pagar “suavemente” e sair com o produto na hora?

    A lógica do “uso agora, pago depois” tem apelo e transforma o que era complicado (esperar, juntar dinheiro e negociar) em uma ação corriqueira. Resultado: o brasileiro está cada vez mais endividado.

    Cerca de 63% das famílias estão devendo e comprometem pelo menos 30% do salário com dívidas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). E 8% não têm condições de quitar o saldo devedor.

    E o problema não para por aí. Comprar indiscriminadamente, a ponto de se tornar um devedor por muito tempo e sem conseguir parar, é considerado uma doença obsessivo-compulsiva. “Algumas pessoas se endividam para exibir um status que não têm, para aliviar a ansiedade ou mesmo ocupar o tempo”, diz a psicóloga Olga Tessari.

    “O super endividamento pode estar ligado à baixa autoestima e por não saber lidar com emoções negativas ou não saber dizer “não” a quem pede empréstimo”, avalia a psicóloga do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, Tatiana Filomensky.

     

    A hora de procurar ajuda

    Mas, se o comportamento de comprar compulsivamente pode ser uma doença, por que pouca gente procura ajuda? O consumo é farto porque é fácil e traz uma sensação imediata de euforia e sem a cobrança da sociedade quando há exagero.

    “Ninguém pode dizer que você está endividado só de olhar, como acontece no caso da obesidade. Então, dá para continuar comprando e manter os problemas longe do julgamento público”, explica Tatiana.

    Estima-se que entre 2% e 8% da população mundial sofra desse mal, que coloca em risco não só a conta bancária, mas também a estabilidade familiar. Entretanto, gostar de comprar não é o mesmo que ser um comprador compulsivo. “A pessoa que se endivida uma vez sofre tanto que vai fugir ao máximo de novas prestações. Já o compulsivo quer aliviar a compulsão comprando cada vez mais, na busca pelo prazer, sem pensar no futuro”, define Olga Tessari.

    De acordo com Gilson Luís da Silva, um dos coordenadores do grupo Devedores Anônimos, de São Paulo, “Setenta por cento dos frequentadores compram para acumular objetos, para saciar a ansiedade. Adquirem coisas para si”, diz. Há ainda os que compram afeto, sustentando os outros, pagando rodadas de bebida, endividando-se para ajudar.

     

    Círculo vicioso

    Segundo os especialistas, embora percebam que o endividamento está prejudicando a sua vida, para aliviar a ansiedade, essas pessoas compram cada vez mais. Resultado: vira um círculo vicioso, pois como não conseguem aplacar a carência, voltam a ter comportamento compulsivo.

    Para se livrar da compulsão, é necessário tratamento psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico. A maior dificuldade do tratamento é que, em geral, ele começa tarde. Em média, demora dez anos para uma pessoa perceber que seu comportamento pode ser doentio. “Primeiro é preciso reconhecer que se tem a patologia. Precisa de avaliação médica correta e adequada, para acabar com os sintomas, e da psicológica, para entender por que comprar virou um problema. Analisar as emoções envolvidas e as situações em que gasta. É preciso entender como lidar bem com o dinheiro”, diz Tatiana.

    “É um círculo vicioso que traz cada vez mais sofrimento. Para resolver o problema, é preciso entender os fatores que geram a elevação da ansiedade, aprender a lidar com eles e superá-los com a ajuda de um psicólogo”, afirma Olga Tessari.

     

    Matéria publicada na Revista Isto É por Flávia Gianini em 20/09/2011