• 08 jan 17

Compras em grupo: ciladas

As armadilhas das ofertas tentadoras e a dor de cabeça depois da compra...

Por: Olga Tessari
  • Compras em grupo: ciladas!

    Compras em grupo: ciladas!

    Entrevista com © Dra Olga Tessari

     

    Sites e clubes de compra oferecem descontos, mas também deixam o consumidor exposto a armadilhas. Especialistas ensinam como não cair em roubada.

    Ingressos para cinema por R$ 6, jantar completo para dois por R$ 49, depilação definitiva com 95% de desconto, ingressos para teatro por R$ 15. Os preços tentadores fazem parte das promoções oferecidas pelos clubes de compra, febre entre os internautas desde 2010. Peixe Urbano, Groupália, ClickOn e Groupon estão entre os maiores.

    O grande problema é que, apesar das ofertas tentadoras, nem tudo o que é oferecido é confiável ou vale a pena. No último mês, por exemplo, o Procon autuou três deles, Groupon, ClickOn e Peixe Urbano, por praticarem condutas que vão contra o Código de Defesa do Consumidor, como não garantir a qualidade dos serviços que oferecem, negar a devolução de dinheiro em casos de não prestação e informar percentual de desconto incorreto.

    As ofertas atrativas devem ser observadas com cautela. Nem tudo o que está na vitrine dos sites é bom negócio. O empresário Adair Pedro de Oliveira, 34 anos, ficou curioso pelos preços convidativos e a chance de conhecer lugares diferentes. Até o pagamento, tudo perfeito. O problema foi na hora de receber o serviço. Comprou alimentação em um rodízio de pizza na Mooca, em São Paulo, por R$ 7, porém, o suco custava R$ 8. “Às vezes o desconto é só chamariz. Você não vai comer sem beber, então, o preço no final não fica tão interessante.”

    Outra desvantagem que incomodou o empresário foi o atendimento ruim. “Há três semanas fui em uma rotisserie e colocaram a gente em um local ruim, trouxeram a comida primeiro para depois trazer entrada e bebidas, enquanto o atendimento das outras mesas era normal. É um lugar que não volto mais”, decidiu. Quem não é cliente de compras coletivas acaba levando vantagem, na opinião de Adair.

    Os recém-casados Juliana Stanev, 29 anos, e Bruno Gonçalves, 36 anos, aproveitam a febre dos descontos virtuais para economizar. “Graças a esses cupons conhecemos muitos restaurantes em São Paulo. Alguns com comida de excelente qualidade, outros nem tanto. Mas vale pela experiência e pela economia”, disse Juliana. O casal encontrou saída para não cair em ciladas: ler atentamente os regulamentos das promoções. “Percebemos que alguns cupons não eram válidos para determinados dias, como sexta à noite. Com isso, sempre lemos e evitamos pegadinhas como vouchers válidos somente com acompanhante pagante. Contra atendimento ruim, no entanto, não há muito jeito, tem de arriscar.”

     

    DESCONTO MAQUIADO

    Tudo parece muito bom, mas não se iluda. Nem todos os descontos astronômicos que se vê nos sites são verdadeiros. Uma pesquisa feita pelo Idec mostrou que os preços estabelecidos pelas empresas nos sites de compras coletivas não correspondem à realidade, são inflacionados para que os descontos pareçam maiores.

    O instituto simulou a compra de sessões de depilação a laser do Instituto do Laser no site Groupon. O valor integral informado era de R$ 1.250, e o promocional, R$ 59,90 (desconto de 95%). No entanto, as mesmas cinco sessões de depilação a laser eram vendidas no próprio estabelecimento por R$ 159.

    O CEO do Groupon Brasil, Florian Otto, tem preocupação em escolher as parcerias. “Temos uma equipe que é responsável por selecionar a qualidade dos parceiros que fazem ofertas conosco.”

    Segundo o Idec, o site Groupalia também colocou os consumidores em uma fria. Um restaurante mexicano prometia reduzir o preço do bufê de R$ 49,90 para R$ 19,90. Porém, ao ligar no local, o que se descobriu é que o desconto oferecido era falso. O valor indicado como promocional era o preço real do serviço.

    No Peixe Urbano, o problema foi ainda mais grave. O site ofereceu cupons para cinco sessões de ultralipocavitação (lipoescultura sem cirurgia), mais dez sessões de plataforma vibratória, por R$ 129. Segundo o site, o valor integral do pacote era R$ 2.050. Mas, ao visitar a clínica Skin Live (que, na verdade, é o Instituto do Laser – aquele da promoção do Groupon), o Idec descobriu que, no local, o mesmo tratamento oferecido pelo Peixe Urbano sairia por apenas R$ 99. Ou seja, o valor integral era ainda menor do que o promocional divulgado pelo site.

    No ClickOn, a oferta era de um aparelho de DVD automotivo de R$ 999 por R$ 499. Ao visitar o site da empresa fornecedora, o instituto constatou que o preço de mercado era R$ 599.

    Segundo o Idec, a veiculação de informação falsa pode ser considerada publicidade enganosa e é terminantemente proibida pelo artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor.

     

    E AGORA?

    O gerente de banco Marcelo Magalhães, 28 anos, comprou um pacote de viagem com destino a Cuba no Groupon. “Paguei à vista, pela confiança e credibilidade da empresa.” A empresa parceira Star Travel, subitamente, foi descredenciada pelo Groupon, que informou o ocorrido aos clientes por e-mail. “Garantiram que na próxima semana entrariam em contato, para apresentar a nova empresa responsável pela viagem.” Fato que não ocorreu. “Tentei por três vezes entrar em contato através do e-mail disponibilizado pelo Groupon. Depois de duas tentativas, fui atendido e a atendente garantiu ter anotado minha reclamação. Porém, continuei sem ter uma posição do site”, reclamou Marcelo.

    Para a advogada da Proteste Polyanna Carlos da Silva, é preciso cautela com a aquisição de viagens. Antes de adquirir, é importante o consumidor buscar informações sobre a estrutura do local, para se certificar da capacidade e qualidade. Outro ponto que merece especial atenção são as restrições de data. Se a expectativa é utilizar o cupom em períodos festivos ou de férias, o cuidado deve ser redobrado.

    Em vez de viagem de folga, Marcelo ganhou um problema. “Até havia me programado no trabalho para viajar, entre outros fatores bem chatos, como a preocupação de ter R$ 3.000 gastos sem saber quem vai oferecer o produto.”

    De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, em casos de descumprimento de oferta, o consumidor pode exigir, à sua escolha, outro produto ou serviço ou a rescisão do contrato com direito à restituição do valor pago. Em caso de negativa das empresas, o consumidor deve procurar o Juizado Especial Cível para reclamar.

     

    ATRASO

    A empresária Natalie Moraes Benegas, 26 anos, gosta de comprar pela internet. Principalmente roupas, calçados, eletroeletrônicos, presentes e produtos de supermercado, como alimentos e material de limpeza. Mas cansou de enfrentar a demora para a entrega dos itens do clube de compra Privália. “O prazo deles é de 20 dias e já faz dois meses que estou aguardando duas compras. Todas as compras recebi com atraso”, reclamou.

    A última deixou a empresária em saia-justa. “Era um presente de casamento que foi no mês passado e estou até com vergonha da noiva por não ter entregado.” A advogada da Proteste explica que é obrigação do site cumprir com a demanda. “Se as empresas vendem mais do que poderiam, elas devem assumir esse risco”, avisa Polyanna.

     

    SAVEME: UM SHOPPING VIRTUAL

    Para quem está com grana no bolso e vontade de encontrar ofertas, mas não sabe por onde começar, a dica é entrar no SaveMe. Inaugurado em julho de 2010, reúne ofertas de diversos sites num só, como um grande shopping virtual. “As pessoas entram sem saber o que querem comprar. Procuram para ver se tem algo de interessante para fazer”, diz o sócio-fundador do SaveMe, Guilherme Wroclawski. É sincero ao revelar que nem sempre conhece com profundidade os parceiros, mas garante que faz acompanhamentos.

     

    VITRINE DAS TENTAÇÕES

    A psicóloga Olga Tessari acredita que as ofertas virtuais podem desequilibrar o orçamento de casa. E não só dos compulsivos. “Para as pessoas que já têm o vício em comprar, esse tipo de comércio leva a pessoa a entrar no cheque especial e cada vez mais ficar endividada. Mesmo quem não é compulsivo, sente-se tentado a comprar porque a campanha é muito massiva.”

    De acordo com a psicóloga, a compulsão por compras não é apenas culpa dos tentadores sites, mas originada pela ansiedade, algo compartilhado por quase toda a população. “Comprar é uma maneira de aliviar tensão, dá prazer ter o objeto. É a mesma coisa de quem bebe ou come por conta de uma ansiedade elevada.”

    Para não correr o risco de entrar numa bola de neve, o melhor é deixar o lado racional bem ativo no momento da compra. “Nunca compre por impulso. Antes de dar o clique, pare e pense se vale mesmo a pena”, orienta Olga Tessari.

     

    SAIBA COMPRAR – Fuja das ciladas das compras em grupo

    A pesquisadora Débora Duarte, 27 anos, mora em Washington, nos Estados Unidos, e testou o Groupon duas vezes lá fora. “Comprei depilação a laser. Estou fazendo e gostando muito.”

    A outra compra ela perdeu por falta de tempo para usar o serviço. “Eram quatro aulas de dança do ventre. Eu queria fazer algo diferente e comprei. Deixei para fazer mais perto do vencimento e, quando entrei no site, vi que conseguiria fazer uma aula apenas, porque a professora criou horários específicos para o pessoal do desconto. Acabei perdendo o meu dinheiro.”

    O CEO do Groupon Brasil, Florian Otto, explica que é essencial ler o regulamento antes de dar o clique definitivo. “É importante que o consumidor esteja sempre atento às regras e condições da oferta para que não descubra algo que não tinha visto após a compra ter sido efetuada.”

    De acordo com o educador financeiro Mauro Calil, autor do livro Receita do Bolo, para que um site de compra seja efetivamente eficiente é preciso focar as compras em produtos ou serviços que já estavam incluídos no orçamento pessoal. “Eu e minha mulher, por exemplo, vamos todo final de semana a restaurantes, então, levamos sempre dois ou três cupons com 50% a 80% de desconto. Ou seja, estou consumindo a mesma coisa pagando menos.”

    O perigo é se deixar levar pelas promoções e começar a comprar sem critérios, diz o especialista. “O único caso que não é legal é quando começar a consumir mais e desnecessariamente. Por exemplo, você se depara com uma promoção de sandálias, já tem 75 no armário, mas resolve comprar mais. Não faz sentido. Limpeza de pele é a mesma coisa. Se sempre fez uma a cada dois meses, continue no mesmo ritmo. Não passe a fazer uma por semana.” Assim comprar coletivamente vale a pena.

     

    SITE DE COMPRAS REGIONAL

    Os moradores do Grande ABC nem sempre encontram grande variedade de ofertas nos sites nacionais. Bruno Morozini percebeu a dificuldade e decidiu abrir o Aproveita ABC com descontos exclusivos nas sete cidades. “Escolhemos a região por termos nascido e crescido aqui. Conhecemos os principais comércios e algumas particularidades do público do Grande ABC”, diz.

    O site, lançado em setembro de 2010, oferece descontos de 50% a 95%. As ofertas mais procuradas são de restaurantes, bares e clínicas de estética. Bruno se preocupa em conhecer os parceiros e diz que está disposto a ajudar clientes que tenham problemas para comprar ou receber os serviços oferecidos, mas, assim como os sites nacionais, não disponibiliza telefone de atendimento, é tudo realizado por formulários virtuais.

     

    MINIATURAS PARA TESTAR

    O Blush Box é um clube de miniaturas, inspirado no norte-americano BirchBox. Começou a partir da paixão de duas mulheres – a bacharel em Administração Samantha Kovac, 36 anos, e a publicitária Luciana Hugos, 37. As duas decidiram criar um blog para discutir e trocar ideias sobre beleza. Até que em uma viagem que Samantha fez aos Estados Unidos conheceu o clube de amostras grátis norte-americano e achou que as brasileiras precisavam conhecer o sistema. Abriu com a amiga o Blush Box, onde se paga mensalidade de R$ 22 (mais frete) e recebe em troca, mensalmente, uma caixinha com miniaturas de produtos de beleza, de sabonetes a pinceis para o make. O objetivo é personalizar cada vez mais o serviço. “Não vamos mandar para uma menina um creme antirrugas”, explica a empresária.

     

    Matéria publicada no Diário do Grande ABC por Raquel de Medeiros