• 19 jan 17

Estresse: grande vilão!

Se mantido por muito tempo, pode levar a doenças graves como síndrome do pânico e depressão.

Por: Olga Tessari
  • Estresse: grande vilão!

     

    O estresse é um grande vilão!

    Entrevista com © Dra Olga Tessari

     

    O problema pode levar a doenças graves como síndrome do pânico e depressão

    Em meio a tantas obrigações do dia-a-dia, fica difícil encontrar tempo para prestar atenção na saúde.

    O resultado desse amontoado de compromissos é um só: o estresse. Ele surge quando se ultrapassa os próprios limites e se vai além do que o organismo consegue suportar, desrespeitando as necessidades físicas e psicológicas do corpo.

    Diante desse desequilíbrio, não tardam a aparecer manifestações de alerta, cujo sinal mais evidente é a elevação do nível de ansiedade. Dela resultam dificuldades de concentração, irritabilidade, mau humor, problemas de memória, impaciência, medos irracionais, insegurança e baixa autoestima.

    Além disso, o corpo reclama por meio de sintomas físicos como taquicardia, tremores, suores, palpitações e falta de ar.

     

    O perigo aumenta quando nada é feito.

    Se mantida nesse nível por um longo período, essa ansiedade pode levar à síndrome do pânico e à depressão.

    É por isso que vem crescendo a procura por terapias alternativas, medicina ayurvédica, práticas de relaxamento, meditação e tratamento psicológico.

    “Não é a correria do cotidiano em si que leva as pessoas a procurarem esse caminho, mas as consequências. É o estresse provocado pela falta de equilíbrio e de respeito ao organismo, que invariavelmente traz muitos outros problemas de saúde”, comenta a psicóloga Olga Tessari.

     

    Meu nome é trabalho!

    Eles vivem um cotidiano extremamente agitado e mal têm tempo para a vida pessoal e uma boa noite de sono. Mesmo assim, são felizes e não pensam em largar essa vida tão cedo – embora reconheçam que têm deixado muita coisa passar em branco.

    O publicitário Rodrigo Zannin, 24 anos, tem no trabalho seu principal foco. “Como o mercado publicitário é extremamente apressado e imprevisível, é comum, pelo menos uma vez por semana, o trabalho passar da meia-noite. Mesmo assim, ainda chego em casa, cuido dos e-mails, atualizo o site da banda [Lazy Dog], mantenho meu blog e cuido de assuntos pessoais”, conta.

    Ficar sempre ocupado não deixa de ser uma opção para ele. “Estou há seis anos sem férias. Tive boas oportunidades de trabalho, o que me fez deixar as férias de lado. Sei que uma hora vou cansar, mas quando isso acontecer, quero poder ter dinheiro e tranquilidade para aproveitar. O reconhecimento profissional e até mesmo uma cerveja com amigos são muito mais saborosos, porque são conquistados com muito esforço. Mas se pudesse pelo menos dormir um pouco mais ou pegar uma época de recesso das bandas e clientes da agência em férias, já seria muito bom”, diz.

    A jornalista e produtora de TV Raphaela Rodrigues, 24 anos, lamenta o fato de não ter muito tempo livre. “Às vezes não consigo nem fazer as unhas, o que parece um pouco superficial, mas cuidados básicos são muito importantes na minha profissão. Com a correria, me habituei a dormir pouco, a fazer tudo correndo, o que é um problema. Rola uma falta de sincronia com o resto das pessoas, inclusive com meus amigos. Quando se tem que correr com tudo, se adquire uma forma muito rápida de pensar e dialogar, que eles não acompanham”.

    Ela confessa que gostaria de ter mais tempo livre. “Adoraria poder dormir mais, sair mais, passar mais tempo com minha família. Mas é muito utópico falar em diminuir o ritmo quando se está atrás de uma meta. Certamente, quando atingi-la e puder diminuir a velocidade, eu o farei. Sinto que tenho aproveitado bem o tempo. Sabe quando você trabalha por dezesseis horas em um dia e o programa que você produz fica em segundo lugar na audiência por quarenta minutos? Isso compensa qualquer esforço”.

    O web designer e produtor musical Rodrigo Medeiros, 20 anos, sente que, apesar de gostar do que faz, sua vida pessoal é prejudicada por causa de suas atividades. “Por conta da flexibilidade dos horários que tenho, ainda assim consigo organizar o tempo para sair e me divertir. Se você não fizer isso, entra em curto-circuito mesmo!”. Relaxar é preciso A vida é curta e o tempo voa. Ainda assim, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre as necessidades pessoais e profissionais.

    Quem se joga de cabeça no trabalho, segundo a psicóloga, pode acabar como as pessoas que sonham com a chegada da aposentadoria, esperando que seus sonhos e desejos reprimidos ao longo da vida sejam satisfeitos quando se aposentarem, pois terão mais tempo disponível para isso. Mas, quando chegam lá, percebem que estão doentes, perderam os amigos, e o casamento e os filhos estão distantes.

    O pior é saber que não há como voltar atrás para resgatar o convívio que se perdeu ao longo dos anos. Reservar um tempo na agenda para as pequenas coisas da vida, como jantar com amigos, namorar no escurinho do cinema, fazer uma rápida viagem no final de semana, passar algumas horas jogando conversa fora com a família, brincar com os filhos…

    Tudo isso tem um saldo bastante positivo. “Penso que o verdadeiro status é a satisfação interior, o amor próprio, poder ter e manter um bom relacionamento com as pessoas. Este é o maior legado que a vida pode nos proporcionar”, opina Olga Tessari. Além de ajudar a refrescar a cabeça e aumentar a produtividade, esse precioso tempo fora do trabalho ainda pode ser motivo de ótimas recordações no futuro.

    Então, por que não tentar?

     

    Eles decidiram parar

    Eles viviam na correria e adoravam a rotina agitada. Estavam sempre a mil para dar conta de todos os compromissos e, ao fim do dia, ter a confortante sensação do “dever cumprido”. Mas, por motivos diversos, resolveram mudar de vida.

    É o caso do médico Mauro Kioshi, de 28 anos. “Desde 2002, quando me formei, até o início de 2005, minha rotina era bastante corrida. Fazia plantões de doze horas em prontos-socorros, quatro a cinco vezes por semana. Em 2005, parei de trabalhar por causa da piora de uma doença. Mesmo tendo de deixar para trás a dura rotina dos médicos, ainda ocupo bastante meu tempo”, conta. Hoje Mauro faz aulas de esgrima, musculação, power yoga e spinning e acredita ter encontrado equilíbrio. “O tempo que passei em casa por causa da doença me fez refletir sobre o estilo de vida que levava e o que ganhei nesses anos de trabalho, tanto financeiramente quanto em termos de crescimento pessoal. E percebi que não compensa”.

    A jornalista Fernanda Braga, 32 anos, tinha uma rotina estressante no jornal em que trabalhava. “Era um corre-corre que não parava nunca. Fiquei meses sem ver meus amigos e sem conviver com minha família. Se, por um lado eu tinha a compensação financeira, por outro eu perdia o contato com as pessoas que faziam parte da minha vida”, conta. Depois de alguns anos, ela foi para a área de assessoria de imprensa, pensando que teria uma vida mais calma. “Continuei trabalhando mais horas do que deveria e dedicando minhas poucas horas livres a outras atividades, como cursos de idiomas e pós-graduação. Meus namoros nunca duravam muito, e quando conseguia um dia de folga, só pensava em dormir. Vivia cansada, mas adorava o que fazia. Tanto que às vezes nem tirava férias; seguia trabalhando, pois achava que era indispensável e insubstituível”, lembra. As coisas começaram a mudar no final de 2004, quando ela teve síndrome do pânico. “Estava tão estressada, tão ansiosa, que meu organismo começou a se manifestar. Com medo de piorar, pedi férias. Comecei um tratamento e aproveitei para avaliar minhas prioridades. Decidi que era hora de mudar de vida. Passei a frequentar academia, a fazer aulas de ioga e pilates, a ter mais tempo para mim. Hoje, trabalho com traduções, em casa, no meu ritmo. Pode até ser que um dia eu volte a atuar na minha área, mas já está decidido: correria, nunca mais.”

     

    Corrida contra o tempo

    As 24 horas de um dia parecem cada vez mais insuficientes para tantos afazeres Vida, louca vida. Quem está no mercado de trabalho – principalmente nas grandes cidades – sabe muito bem o que é uma rotina corrida. Basta tocar o despertador, pela manhã, para que comece um dia totalmente acelerado, repleto de compromissos, que toma todo o tempo e não tem hora para acabar. Além da extrema pressão para um bom desempenho no trabalho, tentamos encontrar uma brecha na agenda para hobbies, diversão, convivência com a família e com os amigos, namorar e descansar. Para muitas dessas pessoas, um dia de 24 horas é pouco para tantos afazeres. O resultado: além do extremo cansaço, a sensação de que a vida está passando e aproveitá-la, que é bom, necas!

    Se antes o excesso de trabalho e atividades era restrito a executivos, hoje é cada vez mais comum encontrar jovens cujas agendas vivem sobrecarregadas.

    Raphaela Rodrigues, jornalista e produtora de TV, é um exemplo dessa turma. Aos 24 anos, trabalha, em média, doze horas por dia, durante a semana, e mais cinco aos domingos. E não reclama quando é escalada para trabalhar aos sábados. “Às vezes noto que minha vida pessoal é prejudicada por causa do trabalho. Ao mesmo tempo, penso que estou no começo da carreira, que esta é a hora de ralar bastante e tentar me estabelecer no mercado”, analisa. Mas ela também vê o lado negativo: “O maior problema é a falta de convivência com minha família. Meu namorado reclama que tenho pouco tempo para ele, mas torce por mim mais do que qualquer outra pessoa”, conta ela, que mora com a mãe mas só consegue vê-la nos finais de semana.

    Outro maratonista diário é Rodrigo Medeiros, 20 anos. Pela manhã, estagia em uma empresa de desenvolvimento de software como web designer; à tarde e à noite, quando precisa, faz freelances como designer de interface e arquiteto da informação. No final da tarde, segue para o núcleo de pesquisa da faculdade, onde emenda com as aulas. À noite, continua os trabalhos da produtora, que podem ir até a madrugada. “Se acabar cedo, ainda dou uma olhada nos freelas antes de dormir. No outro dia, começa tudo de novo”, revela.

     

    Vida pessoal x vida profissional

    Tanta correria se justifica pela alta competitividade do mercado, que gera muitas exigências, como constante atualização, mais anos de estudo, desenvolvimento de novas habilidades, flexibilidade diante de desafios, capacidade de desempenhar múltiplas tarefas e dedicação total ao trabalho. Além do medo do desemprego, essas pessoas ainda convivem com a obrigação de desempenhar funções que antes caberiam a, no mínimo, duas ou três pessoas. Isso, somado à extrema canseira que dá depois do expediente, faz com que outros aspectos da vida, como os relacionamentos amorosos, pessoais e familiares, fiquem em segundo plano.

    “Há sofrimento, porque ao mesmo tempo em que se dedicam ao trabalho, esses indivíduos querem manter seus relacionamentos. Apesar da falta de tempo, desejam que as pessoas sejam compreensivas em relação à sua ausência e não entendem porque elas se afastam ou exigem sua presença de forma mais constante. Essa situação gera conflitos, cobranças e mal-estar nas relações”, aponta a psicóloga Olga Tessari. Para ela, o importante é saber administrar o tempo, pois o que importa é a qualidade. “De que adianta passar horas ao lado das pessoas se não há interação e diálogo entre elas?”, questiona.

    O médico Mauro Kioshi, 28 anos, afirma que já sofreu bastante com as relações amorosas. “Tive relacionamentos estragados pela rotina corrida. Não só por minha culpa, mas também pela rotina de minhas ex-namoradas. Essa correria vem acontecendo com todo mundo. Mal vejo meus amigos e eles também mal saem da rotina trabalho-vida conjugal ou trabalho-faculdade”.

     

    Dormir? Como assim?

    Nessa incessante corrida contra o tempo, não há quem não tenha, entre os maiores sonhos de consumo, uma boa e reparadora noite de sono. Que o diga o publicitário Rodrigo Zannin, 24 anos. “Infelizmente não durmo porque gosto, e sim porque preciso. Me habituei a viver bem, sem cansaço, com seis horas de sono por noite”, afirma. Rodrigo diz que tudo fica muito corrido, se considerar o tempo que passa no trânsito, trabalho, reuniões com as bandas [ele é produtor/empresário da banda Flaming Moe e vocalista da Lazy Dog, de São Paulo, ambas de rock independente], ensaios, shows, divulgação, lazer, entre outros. “Se alguma dessas partes não sai como o previsto, é preciso ter jogo de cintura pra não perder a calma. Finais de semana são lotados e o lazer entra nos intervalos. A única coisa de que faço questão é acordar bem tarde no sábado e no domingo. É quando eu recarrego a bateria”, comenta. A falta de tempo até para dormir é uma constante.

    Porém, o neurologista Luciano Pinto Ribeiro Junior, do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo [Unifesp], chama a atenção para o fato de que a privação crônica de sono pode comprometer diversas funções físicas e mentais. “Se a falta de boas horas de sono virar um hábito, pode haver queda na imunidade, na concentração, na atenção e na memória, comprometimento do aprendizado e até da secreção de hormônios, como o do crescimento”, enumera. Pessoas que dormem pouco têm, ainda, maior tendência à obesidade e ao envelhecimento precoce. A quantidade de horas, segundo o médico, é uma característica individual. “Em média as pessoas precisam de oito horas de sono. Entretanto, quem trabalha demais tende a repor as horas perdidas de sono nos finais de semana. O correto é procurar atender às necessidades do nosso organismo, dormindo uma quantidade de horas adequada todas as noites”, recomenda.

     

    Motivações

    Mas o que leva essas pessoas a mergulharem no trabalho, a deixar a vida pessoal em segundo plano e a enfrentar uma rotina estressante? Para uns, a maior motivação é a realização profissional, somada à necessidade de sobrevivência num mercado bastante seletivo. Para outros são as novas necessidades de consumo. Segundo Olga Tessari, na medida em que essas necessidades são criadas, é preciso mais trabalho para arcar com os custos desses desejos que, na maioria das vezes, são supérfluos. “Se essas pessoas não considerassem que ter status é mais importante do que ser feliz, poderiam muito bem ter um convívio maior com a família e com os amigos e estabelecer um relacionamento mais profundo e prazeroso”, pontua. Para ela, existe uma falsa crença de que só é possível ser amado, feliz e ter bons relacionamentos se a pessoa mantiver um determinado status. “E lá vai ela, trabalhar cada vez mais, em busca desse objetivo. É por isso que a maioria dos viciados em trabalho sente que a vida está passando e que não está sendo possível aproveitá-la”, ressalta a psicóloga.

     

    Matéria publicada no site Paradoxo por Ana Luiza Silveira em 09/08/2006