• 08 dez 16

Autoajuda virtual

Orientação online realizada por psicólogos para distúrbios emocionais pode ser um caminho para resolver problemas.

Por: Olga Tessari
  • Autoajuda Virtual é possível?

    Orientação online para distúrbios emocionais divide psicólogos e terapeutas; alguns defendem atendimento olho no olho

     

    Entrevista com Dra Olga Tessari

    Duas horas da manhã. Angustiada, a advogada Patrícia(nome fictício), 28 anos, liga o computador e entra na internet.  Na página do Google, digita a palavra depressão para pesquisar o assunto. Depois de ler diversos artigos e textos, começa a desconfiar que está com a doença. Na época, Patrícia estava desempregada e fazia dois anos consecutivos que estudava para passar em um concurso público. Sempre era reprovada nos exames e se culpava por isso.  Em um dos sites que visitou, a jovem enviou uma mensagem a uma psicóloga, relatando o que sentia. Como resposta, recebeu o conselho de procurar um especialista. Foi o que ela fez.

    De fato, Patrícia estava com sintomas depressivos. Ainda sob tratamento, inclusive medicamentoso, ela acredita que a internet é um importante instrumento de auxílio àqueles que possuem algum problema. “No meu caso, foi a salvação”, crê.

    Assim como a advogada, muita gente sai à procura de sites que ajudem, de forma ou de outra, a solucionar problemas pessoais ou esclarecer um assunto específico.

    Autoajuda 

    Os sites de autoajuda, por exemplo, têm sido os favoritos de pessoas ávidas por uma melhora de sua condição de vida, assim como de seu aprimoramento intelectual, emocional ou até mesmo espiritual.

    Mas será que se orientar ou até mesmo se consultar com especialistas pela internet é um procedimento adequado?

    Eis uma questão que vem dividindo a opinião de psicólogos e terapeutas de todo o país. Formada pela Universidade de São Paulo (USP), a psicóloga e pesquisadora Olga Inês Tessari diz que a internet é um dos meios mais fáceis de a pessoa procurar ajuda no momento em que está vivenciando o problema. “Só que dificilmente ela encontrará as respostas que procura, mas os caminhos e meios para que possa refletir e encontrar a sua própria solução”, salienta.

    A psicóloga Olga Tessari recebe entre 100 e 150 e-mails por dia, a maioria dos quais de pessoas que acessam o seu site www.ajudaemocional.com. “Grande parte dos e-mails é sobre dificuldades nos relacionamentos afetivos (ciúmes, traição, insegurança, medos), problemas familiares e ansiedade”, diz Olga Tessari que, além de prestar orientações, em alguns casos indica a necessidade de tratamento psicológico.

    Na avaliação dela, embora o atendimento via internet esbarre no preconceito de profissionais não acostumados a fazer uso da internet e de suas ferramentas (e-mail, chats, microfone e videoconferência), o atendimento olho no olho não é o único que funciona: “Quando uma pessoa está disposta a resolver o problema, o atendimento online funciona muito bem. Até Freud se comunicou com uma de suas pacientes por meio de cartas”, destaca, pontuando que isto não contribuirá, por exemplo, para o fechamento dos consultórios, pois existem pessoas que ainda necessitam do tratamento presencial.

    Cuidados

    Ao contrário de Olga Tessari, o psicólogo Ruy Miranda, de Belo Horizonte, avalia que a internet é muito útil como fonte de informação e não como solução de um problema. No site dele, inclusive, o internauta é orientado sobre o que dizer a um profissional durante uma consulta. Ele adverte as pessoas que costumam acessar a internet em busca de autoajuda. “há mais picaretas do que gente séria, se utilizando do anseio por informação para ganhar dinheiro em programas como Adense, do Google. É preciso ter cuidado”, frisa salientando que o internauta deve adquirir o hábito de checar, do ponto de vista profissional, a maior quantidade de informações sobre o autor do site.

    Autor de um dos primeiros sites a disponibilizar o serviço de atendimento pela internet (atualmente desativado), o engenheiro da computação Américo Okubo critica a ajuda psicológica online. “Ela não é eficiente. O profissional que faz a avaliação de seu paciente tem seus recursos bastante limitados. Não é possível, por exemplo, verificar a postura, os gestos, o olhar, a insegurança e tantas outras variáveis que fazem parte do processo de avaliação e aconselhamento psicológico”, argumenta.

    Solidão

    Apesar dos prós e contras, fato é que a internet é uma grande aliada daqueles que a utilizam para fazer novas amizades e driblar a solidão.

    É o caso do estudante de administração de Universidade Federal da Bahia (UFBA), Gabriel (nome fictício), 26 anos, que desde 2004 mora longe da família. “Costumo bater papo com internautas. Em ocasiões como o natal, por exemplo, é uma maneira de esquecer que estou sozinho, longe dos meus parentes”, revela. Conforme a psicóloga Cristima Fogliene, sentimentos sufocados no decorrer do ano se acentuam com a proximidade das festas de final de ano. “Nesses casos, torna-se necessário também buscar ajuda, seja através de qualquer meio. Nem sempre o atendimento em consultório é produtivo, pois há paciente que trava diante do psicólogo mas se solta nas mensagens que trocamos. Um primeiro contato online desmistifica o psicólogo, tornando-o tão humano como qualquer um”.

    Olga Tessari afirma que a eficácia do atendimento online depende da experiência que o profissional tem de saber interpretar adequadamente a linguagem utilizada na internet. Com o avanço do uso de vídeo conferência, o atendimento via internet é praticamente o mesmo que atender pessoalmente.

    Matéria publicada no Jornal A Tarde (Salvador-BA), Caderno Digital, por Rodrigo Vilas Bôas em dezembro/2007