• 30 jan 17

Medo na medida certa!

O medo serve para nos proteger do perigo e sofrimento, não podemos paralisar por conta dele!

Por: Olga Tessari
  • Medo na medida certa!

     

    Medo sim, mas na medida certa! Psicóloga explica como autoestima pode influenciar na cura e na solução de problemas e ressalta a necessidade do prazer

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Medo na medida certa! Todo mundo precisa ter medo. Esse sentimento faz parte da vida e surge para proteger as pessoas de um perigo ou até mesmo de um sofrimento. O problema é quando a vida é paralisada por conta dele.

    A psicóloga, psicoterapeuta e escritora Olga Inês Tessari diz que o medo está ligado ao instinto de sobrevivência, senão as pessoas morreriam antes do tempo. “O medo também surge por causa do nível elevado de ansiedade. É muito comum alguém com estresse ter medos que normalmente não teria. A ansiedade leva a pessoa a ter pensamentos negativos”, disse.

    A empresária Marly Endringer, 43 anos, e o administrador Rodrigo Lima de Almeida, 27, venceram os seus medos e hoje levam a vida normalmente. Marly foi vítima de um seqüestro em dezembro de 2002 e ficou por cinco horas em poder dos bandidos. “Fui colocada no porta-malas e depois me deixaram em um matagal. Tive os olhos vendados, fui amordaçada e ameaçada de morte”, lembrou. Depois disso, Marly começou um tratamento com psicoterapia. “Fiquei com medo de gente, de entrar no elevador e de descer a escada da minha casa. Sentia o tempo todo a arma apontada na minha cabeça. Com a psicoterapia, superei”, disse.

    Rodrigo venceu os traumas de um acidente de moto que o deixou em coma por três dias e internado por dois meses. Em agosto de 2004, ele estava indo trabalhar quando se chocou com um carro num cruzamento. O administrador quebrou três costelas, levou 26 pontos na cabeça e 18 no queixo, teve fratura exposta no braço direito e quebrou a clavícula. “Na época, malhava e fazia luta, mas os médicos disseram que nunca mais iria voltar a lutar. Em seis meses voltei a malhar e pouco tempo depois estava treinando”, disse, lembrando que, no início, ficou depressivo. “No início pensei que não pilotaria mais moto, mas hoje ando sem problemas”, contou.

     

    E quanto a doenças?

    A psicóloga, psicoterapeuta e escritora Olga Inês Tessari observa que cada pessoa reage de uma forma ao receber o diagnóstico de uma doença. “Quando alguém recebe a notícia de que está com câncer, por exemplo, há quem se deprima e há quem veja o problema como um desafio a vencer, mesmo sabendo que corre o risco de morrer”, diz. Para ela, a segunda opção é a mais recomendada, pois ajuda a vencê-la. Ela destaca, ainda, que quando o assunto é a depressão, em primeiro lugar, é preciso tratar as causas do problema. “Por isso as pessoas não resolvem o problema. Elas tomam medicação por um tempo, mas, quando se sentem melhores, param e os sintomas acabam voltando”.

     

    (direito autoral das respostas © Dra Olga Inês Tessari)

     

    A Tribuna– De que forma a autoestima pode ajudar as pessoas a resolverem os seus problemas?
    Olga Inês Tessari– Uma pessoa que tem a autoestima baixa acha que todo mundo é melhor do que ela, que tudo de ruim acontece com ela. Nestes casos, não é difícil a pessoa se abater diante de uma doença, um trauma. É diferente da pessoa que está com uma autoestima boa. Ela pode até ficar chateada, o que é natural, mas supera o problema sozinha, na maioria das vezes.

     

    A Tribuna- E quando a doença é um câncer? Como as pessoas costumam reagir?
    Olga Inês Tessari– Cada um reage de uma maneira. Existem pessoas que se deprimem e outras que agem diferente, que vêem a doença como um desafio e fazem de tudo para superar o problema, mesmo sabendo que correm o risco de morrer. Esta ação está relacionada com a personalidade e a história de vida de cada um. Dependendo de como a pessoa lida com a situação, será gerado um bem-estar ou um mal-estar psicológico.

     

    A Tribuna– Qual seria o caminho para vencer uma depressão?
    Olga Inês Tessari– Por mais que as pessoas tomem a medicação para restabelecer o equilíbrio bioquímico (na depressão ocorre um desequilíbrio na bioquímica cerebral), é preciso tratar as causas do problema, que são de fundo emocional. Não adianta ficar tomando a medicação sem resolver o porquê, as causas.

    Eu tenho casos de pacientes no consultório que reclamam que tomam medicação para depressão há cinco, seis anos, e que não resolveram o problema. A pessoa toma o remédio por um período e fica bem, mas como ela não tratou as causas, acaba tendo esse desequilíbrio de novo. Neste caso, o distúrbio pode acontecer a qualquer momento. Tudo está relacionado como a forma da pessoa enxergar o mundo, de encarar as coisas e reagir a elas.

     

    A Tribuna– Mas há cura ou não?
    Olga Inês Tessari– Se a pessoa conseguir restabelecer o equilíbrio bioquímico e agir no sentido de mantê-lo com o emocional em equilíbrio também, poderá viver o resto da vida bem.

     

    A Tribuna– Não é difícil encontrar pessoas que tenham medo de altura, de avião e de dirigir, por exemplo. Há explicação para isso?
    Olga Inês Tessari– O medo de voar e de dirigir estão relacionados à independência e à liberdade. Pessoas que desenvolvem tais medos são dependentes, muito preocupadas com a crítica e o comentário alheios. São pessoas que não admitem errar, que querem manter o controle sobre tudo e que são muito ansiosas.

    Quando o nível de ansiedade se eleva, você não consegue raciocinar direito e os medos tomam conta mesmo, porque você só pensa de forma negativa e catastrófica, só pensa no que pode ocorrer de ruim. Qualquer pessoa que vai embarcar num avião pensa, em algum momento, que o avião pode cair, mas depois este pensamento ruim é esquecido. Agora, uma pessoa que está muito ansiosa pensa que o avião vai cair o tempo todo, estimulando os pensamentos negativos.

     

    A Tribuna- Uma família problemática pode fazer a pessoa somatizar isso e desenvolver algum medo, doença ou depressão?
    Olga Inês Tessari– Em geral, famílias problemáticas geram pessoas problemáticas. A criança necessita de uma infância sadia, na qual se sinta protegida, cuidada. Se ela possui pais muitos críticos, ausentes ou negligentes, crescerá insegura, desenvolvendo uma série de medos. E esses medos podem desencadear depressão, pânico, ou ainda problemas gastrointestinais e alergias. Hoje em dia, há comprovações de que uma série de problemas físicos são de fundo emocional.

     

    A Tribuna– Qual a orientação que dá para as pessoas superarem os problemas?
    Olga Inês Tessari– Independentemente de qualquer coisa, é preciso viver a sua vida. Preocupar-se com você, ter tempo para fazer o que gosta e o que é bom para você. O que acontece, na maioria das vezes, é que as pessoas vivem em função das obrigações e somente depois de cumpri-las vem o prazer. As obrigações, em geral, são com os outros.

    Infelizmente, as pessoas vivem sempre preocupadas em agradar o outro, antes de agradarem a si mesmas. É assim que começam os conflitos e os problemas emocionais. É importante que pelo menos uma vez por dia as pessoas façam uma coisa boa para si próprias, encontrem um tempo para cuidarem de si mesmas fazendo algo de bom.

     

    Matéria publicada no Jornal A Tribuna – Vitória/ES em 09/07/2006