• 04 fev 17

Mãe que cria filho sozinha

Ser mãe sozinha tem suas dores e delícias, dificuldades e problemas.

Por: Olga Tessari
  • Mãe que cria filho sozinha.

     

     

    Para a mãe que cria filho sozinha: não é fácil! Mães solteiras e separadas sofrem!

    Cuidar, prover e educar um filho para a mãe que cria o filho sozinha é difícil.

    Mãe que cria filho sozinha: não é fácil não! Depois de dar à luz uma criança, as mães sempre ficam muito sensíveis e emocionalmente frágeis, pois precisam aprender a lidar e a cuidar de um ser muito pequeno, com quem criará laços afetivos muito fortes pelo resto da vida.

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

    A situação piora consideravelmente quando elas são mães solteiras ou enfrentam uma separação antes ou logo após a chegada do nenê. E, cá entre nós, dar conta de uma criança, tocar a carreira e ainda ter tempo para cuidar de si mesma, sem o apoio e a presença do pai, não é nada fácil.

    Como elas arrumam forças e se equilibram emocionalmente para enfrentar o problema? Será que a criança criada só pela mãe pode ter problemas de relacionamento? Como fica a vida pessoal quando a prioridade é sustentar o filho e comandar a sua educação?

    Carolina Barbosa, 26 anos, produtora de eventos, sabe bem como é difícil organizar a vida diante da ausência do pai. Mãe de Alice, de 8 anos, e Francisco, de 4, ela se separou do marido após o caçula completar seis meses.

    “Foi bem difícil no começo. Eu tinha de impor limites, organizar a rotina deles. Ao mesmo tempo, é complicado você se descobrir solteira. Tudo isso junto faz com que você tenha de encontrar uma identidade. Mães costumam ser um poço de culpa, e essa situação fez a minha triplicar”, conta.

    Para superar as dificuldades, Carolina foi atrás de uma rede de apoio. “Minha família é muito importante. Meu pai me ajudou financeiramente, minha mãe dorme na minha casa quando quero sair e ainda tenho uma pessoa que me ajuda durante os dias da semana, pois preciso trabalhar ainda mais para segurar a onda sozinha”, afirma ela.

    O começo é muito difícil, pois é preciso lidar com o fim do relacionamento e a educação da criança. Apesar de ter de enfrentar tudo isso, a gente sabe que em primeiro lugar sempre vem o filho.

    As mesmas dificuldades assombraram a funcionária pública Luciana Porcedda, 39 anos, mãe de Ítalo, de 3. Ela havia acabado de voltar ao Brasil após uma temporada de estudos e trabalho nos Estados Unidos, onde conheceu o pai do bebê, com quem ficou por dois anos.

    “Quando meu filho completou quatro meses, tive de voltar ao Brasil para reassumir meu emprego, enquanto o pai continuou por lá. Minha intenção era trabalhar aqui por mais dois anos e voltar para lá, mas nesse meio-tempo o pai arrumou outra mulher e, então, terminamos o relacionamento”, conta ela.

    Ao se ver sozinha com o filho, precisou se reorganizar. “O começo é muito difícil, pois é preciso lidar com o fim do relacionamento e a educação da criança. Apesar de ter de enfrentar tudo isso, a gente sabe que em primeiro lugar sempre vem o filho”, ressalta.

    Segundo a psicóloga Olga Tessari, autora dos livros “Dirija Sua Vida sem Medo” e “Amor X Dor”, do site www.olgatessari.com, a força feminina num momento como este vem do instinto de proteção, por saber que o bebê depende dela para sobreviver. “O organismo colabora para isso. A sensibilidade da mulher permite que ela ouça os menores ruídos que o bebê fizer e todos os seus sentidos ficam aguçados ao extremo. É por isso que o filho passa a ser a coisa mais importante de sua vida”, observa.

    Toda mãe tem medo de não ser boa o suficiente para o seu filho, de não cuidar dele adequadamente e, na mãe solitária, estes medos são mais presentes do que nas mães que contam com um marido/provedor.

    Do ponto de vista psicológico, diz a Olga, a mulher pode até estar em frangalhos, mas seu instinto não permite que ela deixe o filho à míngua: ela vê no cuidado da criança a força para seguir em frente, justamente por perceber que o filho depende dela para sobreviver. “Claro que ela tem seus momentos de tristeza, mas supera-os ou pelo menos deixa-os de lado rapidamente por conta até da falta de tempo para pensar em suas mazelas. É como se, nesse momento, ela desse uma pausa em sua vida para cuidar do bebê. E é o que vemos muitas vezes: mulheres que anulam-se por conta de seus filhos”, comenta.

     

    Mãe presente

    Sentir medo de não dar conta do recado é mais comum do que se imagina. “Toda mãe tem medo de não ser boa o suficiente para o seu filho, de não cuidar dele adequadamente e, na mãe solitária, estes medos são mais presentes do que nas mães que contam com um marido/provedor, como se ele lhe desse a proteção de que ela precisa para poder cuidar bem do seu filho sem se preocupar com mais nada além dele. Afinal, por ela ter que arcar com as despesas da casa e também cuidar do filho, a sobrecarga de cobranças internas aumenta”, sublinha a psicóloga.

    Em outras palavras, com receio de não conseguir arcar com tudo sozinha, a mãe acaba se impulsionando no sentido de não faltar nada para o filho e de proporcionar uma boa vida a ele. Criar uma rotina para conciliar o filho com o trabalho não é fácil para essas mães, mas elas sempre acabam dando um jeitinho.

    Carolina, por exemplo, faz questão de tomar café da manhã e ajudar as crianças no dever de casa antes de sair para o trabalho. À noite, ainda arranja fôlego para contar histórias e colocá-los para dormir. “Depois de tudo isso, caio na minha cama, exausta”, confessa. Nos dias de folga, procura incluir as crianças nos programas. O mesmo é feito por Luciana, que inclui o filho em quase tudo o que faz nos finais de semana. “Dificilmente faço alguma coisa em que eu não possa levar o Ítalo”, ressalta.

    A falta do pai não significa, é claro, que ele nunca vá dar bola para as crianças. Uns são mais presentes, outros nem tanto. “Minha filha mais velha teve pneumonia e permaneceu uma semana internada no hospital. Dos sete dias, fiquei seis. O pai, só um. Tive de avisar que iria faltar ao trabalho e fiquei com ela o tempo todo”, relata Carolina.

    Já Luciana teve mais sorte. O pai de Ítalo, que hoje mora em Londres, mantém com ele uma ótima relação, mesmo à distância. “Ele telefona sempre, conversa com nosso filho, vem ao Brasil para as festinhas de aniversário, viaja com ele e ainda participa da educação. É engraçado, pois o Ítalo tem uma ligação muito forte com ele e o obedece sem contestar. Foi graças a um pedido do pai que ele largou a fralda e começou a usar a privada. A batalha, agora, é fazê-lo largar a chupeta”, diverte-se.

    Alguns pais, infelizmente, não assumem seu papel e ignoram a criança. “Infelizmente isso existe, mas a presença do pai também é muito relativa. O pai pode estar presente e não dar a mínima para o filho”, opina Luciana.

    Para ela, mesmo com o monte de dificuldades da vida de mãe solteira, é possível enxergar o lado positivo da coisa. “O bom de criar o filho sozinha é que o que você fala é lei. Com outra pessoa, é mais complicado. O pai tanto pode ajudar quanto ficar enchendo o saco com palpite. Às vezes, até tira a autoridade da mãe. Criando sozinha, não há choque”, avalia.

    É muito comum ouvir mães relatarem que seus ex-companheiros são ótimos pais, embora tivessem sido péssimos parceiros. E cabe à mãe jamais denegrir a imagem do pai para seus filhos.

     

    O papel do pai

    Antes de impor ao pai da criança a necessidade de estar presente, é necessário saber se ele está realmente disposto a conviver com o filho e a acompanhar seu crescimento e desenvolvimento. “Se o pai não quiser participar, é melhor que permaneça distante e sem contato porque, ao estar com o filho, ele vai demonstrar a sua indiferença ou irritação por não querer estar ali, o que pode gerar problemas emocionais por conta do filho se sentir rejeitado pelo pai”, recomenda Olga Tessari.

    Mas, se o pai quer participar, então deve manter uma constância no seu contato, encontrar-se com o filho pessoalmente sempre que possível, saber de sua vida e acompanhar o seu desenvolvimento. “Nesse sentido, a relação da mãe com o pai deve ser, pelo menos, cordial, porque ex-casais que têm conflitos nem sempre conseguem separá-los dos cuidados com o filho e, muitas vezes, acabam até usando o filho como instrumento”, alerta a psicóloga Olga Tessari.

    O problema, em geral, não está na ausência física do pai, mas na maneira como a mãe lida com esta ausência, o que pode ser fundamental na formação emocional da criança. Mães que sentem a falta do homem com quem elas se relacionaram, que não aceitam o fato de estarem separadas dele e que atribuem à separação a maioria de seus problemas atuais podem colaborar para que seus filhos apresentem problemas.

    Isso acontece porque eles terão na imagem do pai uma pessoa que faz sua mãe sofrer, o que pode gerar problemas de relacionamento com a figura masculina ou mesmo dificuldade de se relacionar com o pai no futuro.

    Um bom relacionamento com ex é fundamental, mas nem todas as mulheres conseguem mantê-lo. Em suma, os filhos lidarão bem com a ausência do genitor se a mãe souber lidar com ela também. É importante notar que os filhos aprendem a lidar com a realidade através da mãe.

    Portanto, de acordo com Olga Tessari, ela deve ter bem claro que uma coisa é a relação homem-mulher que terminou; outra, bem diferente, é a relação pai-filho, pai-mãe, que continuará pela vida afora. “É muito comum ouvir mães relatarem que seus ex-companheiros são ótimos pais, embora tivessem sido péssimos parceiros. E cabe à mãe jamais denegrir a imagem do pai para seus filhos”, recomenda.

     

    Vida própria

    Ser mãe sozinha tem suas dores e delícias, mas na maioria das vezes é preciso força para manter os pés no chão e a autoestima lá no alto.

    Se você está passando por isso, procure não se lamentar ou culpar ninguém, nem a si mesma, tampouco atribuir à falta do pai os seus problemas. Se a situação apertar, vale a pena buscar ajuda de familiares e amigos, que podem dar um suporte em momentos de dificuldade ou simplesmente cuidar da criança quando você tiver algum compromisso. Falando nisso, é fundamental ter tempo para si mesma!

    “É importante ter amigos e uma vida social. Afinal, mais cedo ou mais tarde, o filho vai crescer e seguir seu caminho. O que será de uma mãe que anulou toda a vida por causa dele?”, questiona Olga Tessari.

    Matéria publicada no site Bolsa de Mulher por Ana Luiza Silveira em 08/08/2008