• 08 jan 17

Mãe solteira é pai e mãe

A mãe solteira executa o papel de mãe e de pai ao mesmo tempo: tarefa árdua!

Por: Olga Tessari
  • Mãe solteira é pai e mãe!

     

    Mãe solteira: como ser o pai que seus filhos não tiveram?

    Entrevista com © Dra Olga Tessari

     

    Confira dicas de especialistas e as histórias de mães que não fugiram à luta e assumiram os dois papeis na criação de seus filhos

    Separação, abandono, por opção, falecimento do parceiro. Existem mulheres que por esses ou outros motivos são mães solteiras e assumem também o papel que seria do homem na criação dos filhos. A tarefa não é nada fácil. Para homenagear essas “pães” neste Dia dos Pais, conversamos com especialistas para aprender a lidar melhor com tal realidade. E conhecemos o dia a dia de duas “pães” que toparam partilhar com as leitoras do Tempo de Mulher suas histórias.

    A psicóloga Dra. Sueli Damergian lembra que, independentemente do motivo que levou essas mulheres a arcarem com o duplo papel, elas devem se lembrar que são, antes de tudo, mães. “Elas não devem querer imitar o pai, mas sim se tornar uma espécie de “mãe paterna”. Isso significa dar amor, afeto, cuidados e outras necessidades afetivas e, ao mesmo tempo, segurança, limites, regra, papéis culturalmente ligados à figura do homem. É uma tarefa de bastante difícil, mas possível. Elas precisam ser capazes de não deixar de transmitir o amor materno, fundamental na vida de qualquer criança para construção de sua identidade e equilíbrio”, complementa a especialista, que é professora de Psicologia das Relações Humanas do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

    A psicóloga e escritora, Dra. Olga Tessari, conta que, nos dias de hoje, existe pouca diferença entre as funções que a figura feminina e masculina desempenha na criação de um filho. Mas que, no acúmulo de responsabilidades, as mulheres sentem o peso de cada função. “Normalmente a mãe é mais compreensiva, permissiva, emocional, e o homem está mais ligado à razão. Então, quando a mulher assume os dois papéis entra em crise consigo mesma, pois conflita com o seu instinto, com o que realmente sente enquanto mãe”.

    Apesar disso, Dra. Olga Tessari lembra que a mulher não deve deixar a situação passar do “choque inicial”. “O conflito pode ser eterno, mas ela precisa seguir a vida, colocar os pés no chão e ser firme. E entender que não vai conseguir fazer os dois papéis perfeitamente”. A psicóloga afirma que uma figura masculina mais próxima como um irmão, tio ou amigo, por exemplo, pode auxiliá-las em momentos de conflito.” Claro, não como pai, mas esses homens podem ajudá-las em horas que o coração fala mais alto do que a razão”, ensina.

     

    Dois casamentos, duas filhas, dois papéis

    A professora de alfabetização Elenice de Araújo Guedes, de 49 anos, passou pela situação duas vezes. Em seu primeiro casamento ela teve Fernanda, hoje com 26 anos. Apesar de ter somado mais de quatro anos de relação com o pai de sua filha, entre namoro e noivado, seu casamento durou apenas oito meses. “Já estava fazendo enxoval, mas a gravidez não estava nos meus planos e só descobri no quinto mês de gestação. Enfim, quando casamos, os problemas começaram e, entre outras coisas, ele era viciado em jogo. Comecei a lidar com tudo sozinha e ele lá, apático, folgado, tirava o corpo fora, achei melhor separar. Nem parei para pensar nas conseqüências, era uma garota de 24 anos. Fui morar com minha mãe, saí para batalhar e terminar minha faculdade”.

    Na época em que se divorciou, Elenice reencontrou seu primeiro namorado e com ele começou uma relação que durou 10 anos, entre idas e vindas. Dela nasceu Paula, hoje com 20 anos. O companheiro a ajudou nos primeiros quatro ou cinco anos, mas depois ela teve que se virar sozinha. “A Fernanda não foi prejudicada em seu lado emocional porque cresceu com uma figura masculina de referência em casa, que foi um de meus irmãos”. Já a segunda filha sentiu um pouco, mas Elenice achou melhor sair da relação e assumir tudo: “Não acho que as mulheres tenham que ficar no casamento por conta de situação financeira, por exemplo. Deixei aberto para os pais delas decidirem o que fazer, mas nenhum se prontificou a ajudar ou veio procurá-las. Fui à luta, estudei, comecei a trabalhar e tenho hoje um emprego estável, contei com a ajuda da minha mãe”.

    Apesar de firme em sua decisão, Elenice lembra que existem os contras. “Claro que fiquei um pouco insegura de não ter em casa a figura do pai, aquela coisa do casal, da referência. Mas o que me ajudou na criação delas foi não querer ser “super-heroína”. Achar que é possível suprir tudo que um pai pode oferecer é egoísmo”. Ela relata que não é fácil lidar com os dois papéis. “Trabalhei, não deixei de oferecer nada para elas. A primogênita, por exemplo, se formou bailarina, fez natação… Para mim, elas sempre estavam em primeiro lugar. Sinto que perdi um pouco da minha identidade de mãe, me sinto mais pai, até. Às vezes parece que sou amiga delas. No fim, não sei se sou pai ou mãe, mas me sinto bem assim. E mesmo tendo assumido essa condição numa boa, espero que não aconteça isso com nenhuma delas, porque não é fácil”.

     

    Vale tudo em nome do filho

    De Uberaba Minas Gerais, nossa leitora Linara Tupa, de 26 anos, conta que perdeu um casamento, mas ganhou um grande companheiro: seu filho Pedro, de 9 anos. A bancária engravidou aos 17 quando morava com seu pai em Brasília, mas a rejeição dele à gravidez fez com quem voltasse a sua terra natal e, ao lado da mãe, passasse a gestação. Por pressão da família, Linara casou com o pai da criança. Mas a união terminou logo em seguida, quando o bebê completou 11 meses.

    Linara voltou novamente para a casa da mãe e saiu à luta. “Não larguei ele para a minha mãe cuidar, fui trabalhar, estudar e procurei uma escola para o Pedro. A vida muda, mas não me arrependo. No meu caso, voltar para minha cidade foi uma guinada na vida”, conta a jovem mãe, que se formou em universidade federal e é especialista em Direito Civil.

    Apesar de sua força de vontade, não nega que é difícil educar uma criança sozinha. “Às vezes em situações simples do cotidiano você sente a diferença. É difícil criá-lo para o mundo de hoje. Converso o tempo todo com ele sobre drogas, como se defender de intimidações na escola, sobre pedofilia. Será que posso deixá-lo ir à casa de um amiguinho? E num local público, devo mandá-lo sozinho para o banheiro masculino? Algumas preocupações de pai e de mãe são diferentes, o mundo de hoje é diferente, então é dificílimo pensar tudo isso sozinha”, desabafa.

    O pai faz pouco contato. Mas Linara prefere assim, por problemas que enfrentou no passado. “Depois que nos divorciamos, ele levou nosso filho para seus familiares conhecerem, mas ficou sumido por quase 20 dias. Meu filho não tinha nem quatro anos, mas relatou que sofreu maus tratos e, por isso, faz terapia. Hoje ele é bem maduro, o acompanhamento médico ajuda e conversamos muito. Meu filho não pode querer ter o pai que nunca vai ter. Moramos juntos, ele é meu maior companheiro, quer saber como foi meu dia, me ajuda nos afazeres domésticos, luta do meu lado”, relata.

    O pai de Pedro, que reside em outro Estado, tem o direito de ver a criança de forma assistida, mas pouco o visita. “Ele tem melhor situação financeira. Não ajuda no material escolar e com remédios, mas presenteia com cordão de ouro e videogame de última geração. São coisas que não posso fazer pelo Pedro e deixo isso claro. Mas ele mesmo me diz: Nunca vou ficar com ele, o meu pai não vai me dar o que você me oferece, o amor”, derrete-se a mãe que, pouco antes de conversar com o TDM, tinha voltado da escola de seu filho onde aconteceu uma homenagem pelo Dia dos Pais.

     

    Orientações para cuidar melhor de seu filho – e de si mesma

    Nossas entrevistadas deram dicas úteis para você, que é mãe solteira, lidar melhor com a maternidade e tentar suprir a ausência de um pai. Para facilitar a vida das pães, leitoras do Tempo de Mulher, as psicólogas Olga Tessari e Sueli Damergian deixaram alguns conselhos. E as mães Elenice e Linara, na prática da situação, partilharam o dia a dia de suas experiências.

     

    Não sinta pena de seu filho pela ausência do pai.  “A mãe vai ter de ensinar ao filho que, seja por abandono, morte ou outro motivo, seu filho vai ter que aprender a lidar com a situação. Ela nunca deve tratar o filho como coitadinho”, avalia Dra. Olga Tessari.

     

    Crie seu filho para o mundo. É preciso entender que, apesar de ter arcado com todas as responsabilidades sozinhas, quando crescidos, os filhos tomam seus rumos. “Elas se apegam e depois se sentem abandonadas porque toda a sua vida girou em torno de exercer o papel de mãe. É a síndrome do ninho vazio”, comenta Dra. Olga Tessari.

     

    Seu filho mais velho não é o homem da casa. Eles têm que ser criados para ter independência, e o filho mais velho nunca deve ser tratado como o pai dos menores, caso a mulher tenha mais crianças em casa. “Tente dividir responsabilidades, já que precisa trabalhar, delegue tarefas”, sugere Dra. Olga Tessari.

     

    Não se anule da vida. A mulher não deve se colocar em último plano, precisa se deixar viver. “Normalmente a vez delas não chega nunca. É preciso cuidar de si, tem que ter tempo de ir ao cabeleireiro, ler um livro, sair, conhecer novas pessoas, se relacionar e até assistir novela. É encarar essas atividades com prazer, como um lazer, e nunca como uma obrigação”, opina Dra. Olga Tessari.

    “Optei por não ter mais ninguém, sou sozinha, mas não tenho solidão. Assumi essa condição numa boa e estou de bem com minha vida”, relata a educadora Elenice, mãe de Fernanda e Paula. “Meu filho não tem ciúmes de mim, saio numa boa, ele conhece todos os meus amigos. Aliás, vive dizendo que quer ter um irmãozinho. Mas isso depende de eu arrumar uma pessoa bacana”, diz Linara.

     

    Dê o melhor de si. Dra. Sueli lembra que as mães realmente estão sobrecarregadas, principalmente por terem conquistado cada vez mais funções de grande responsabilidade no mercado de trabalho, mas que, apesar do cansaço, precisam se superar. “Às vezes vai faltar paciência, então é preciso se desdobrar. A mãe tem que fazer o seu melhor e lembrar que a criança já sofre uma ruptura por não conviver com o pai. O filho não tem culpa de o relacionamento não ter dado certo”.

     

    Quantidade não é qualidade. Independentemente do tempo que for destinar à criança, faça com dedicação. “A criança precisa ser alimentada fisicamente e emocionalmente com o amor de mãe, principalmente se o pai não for presente. Seu filho precisa de atenção, mas não se sinta sugada. Mesmo que o tempo seja menor, se esforce, supere limites, faça seu melhor”, aconselha Dra. Sueli.

     

    Não impeça seu filho de se relacionar com o pai. Pense que o contato é importante do ponto de vista emocional. A figura paterna pode ajudar a fortalecer a identidade, principalmente dos meninos, e fazer a diferença na segurança e equilíbrio da criação. “Quanto menos hostilidade e pirraça, melhor para a criança”, lembra Dra. Sueli.

     

    Não use chantagem para conseguir apoio financeiro. Conseguir dinheiro a qualquer custo não vale à pena, principalmente se pai e mãe não convivem civilizadamente, diz Dra Olga Tessari. “Nunca usei minhas filhas ou fiz algum tipo de jogo com os pais delas para conseguir mesada, pensão ou qualquer outra coisa. Deixei-os livre para se aproximarem, eu preferia que dessem amor a elas, não dinheiro. No meu caso, tive condições de assumir, mas, sendo sensata, a parte financeira é bem complicada. Se possível, os dois precisam entrar em acordo pelo bem dos filhos. Mas se você tem como viver humildemente sem a ajuda deles, vá em frente. Para ficar junto, precisa ter amor”, relata Elenice.

     

    Não viva para se arrepender. Deixe de lamentar relações frustradas. “Não sou do tipo doméstica, mãezona, mas minha maneira foi apostar na educação. Sou professora, acho isso fundamental. Se o pai não ajuda, a mãe vende até o carro se for para investir em seu filho”, acredita Elenice.”Quando a mulher engravida muda totalmente sua visão. É uma vocação e esse sentimento ela tem que agarrar e se conscientizar de que sua vida vai mudar. Não podemos largar para nossas mães criarem. Enfrente tudo em prol de seu filho”, aconselha a bancária Linara, mãe de Pedro.

     

    Matéria publicada no site Tempo de Mulher – por Karina Costa – 14/8/2011