• 05 fev 17

Autoestima é saúde e vida!

1/3 da população mundial sofre com a baixa autoestima e falta de amor próprio.

Por: Olga Tessari
  • Autoestima é saúde e vida!

     

    Saúde e vida é autoestima! Para se ter uma ideia do quanto a situação é caótica, Michael Marmot, pesquisador do Centro Internacional para Saúde e Sociedade (Londres), em estudo publicado no British Medical Journal em 2003, afirma que a falta de autoestima pode até encurtar a vida de uma pessoa e apontou que 1/3 da população mundial sofre desse distúrbio.

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    A estima é fácil de conceituar, sentimento de carinho e apreço por alguém. Admiração e respeito. Quando se trata dos outros, parece sempre mais fácil. A especialista em terapia familiar e autora do livro Aqui e Agora… Lá e então…, Cleia Perez (50), afirma que autoestima é como o nome diz estima por si mesmo, afeto por si mesmo com base no conhecimento e reconhecimento de quem você é.

    A questão é que, desde pequenas, as pessoas ouvem que não são suficientemente boas. Essas mensagens vêm através dos familiares, professores, das pessoas que nos conduzem para um estado mais espiritual. Na infância, não havia autoconhecimento suficiente, ferramentas de discernimento, e essa visão foi introjetada automaticamente.

    Na maturidade, é necessário refazer a imagem positiva para que o indivíduo faça uso do seu melhor. O nome para esse processo é recuperação, cura. Se um dia alguém fizer com que se quebre a visão bonita que você tem de si, com muita paciência e amor reconstrua-a.

    Assim como o artesão recupera a sua peça mais valiosa que caiu no chão, sem duvidar de que aquela é a tarefa mais importante, você é a sua criação mais valiosa. Não olhe para trás. Não olhe para os lados. Olhe somente para dentro, para bem dentro de você e faça dali o seu lugar de descanso, conforto e recomposição.

    Crie esse universo agradável para si. O mundo agradecerá o seu trabalho (OBK)

    Não há questão de arrogância nisso.

    Um dos conceitos de arrogância é não ter consciência do potencial construtivo do bem e, por conta disso, construir o inútil, o nocivo, o sem valor por falta de matéria-prima nobre.

     

    Saindo do buraco existencial

    Depressão psicológica ou moral, sentimentos de falta ou de perda de alguma coisa ou pessoa, vazio, vácuo designam o estado estou no maior buraco. Esse fosso é uma cavidade não física e dentro do eu, num universo não manipulável, não palpável como a matéria. Esse é o lugar onde nos metemos ao manter o sentimento de menos-valia que pode ir desde uma sutil sensação de inferioridade até profundos sentimentos depreciativos.

    Segundo a psicóloga Olga Inês Tessari, a baixa autoestima gera ansiedade, medo, depressão, fobias e uma série de outros problemas. Para ser feliz é necessário que a autoestima esteja num bom nível. Voar alto com as asas da autovaloração, no entanto, exige um certo desprendimento.

    E a liberação começa com a famosa frase do filme E o vento levou: Jdon tgive a damn. (Não dou a mínima, estou pouco me lixando) com a opinião alheia. Ninguém consegue agradar a todos. A característica de se preocupar demais com a opinião alheia é típica de quem tem baixa autoestima.

    A autoestima é importantíssima, porque é a capacidade que uma pessoa tem de confiar em si própria, de se sentir capaz de enfrentar os desafios da vida, é expressar deforma adequada para si e para os outros as próprias necessidades e desejos, é ter amor-próprio.

    Para avaliar mais precisamente o que significa não admitir como verdadeiras e reais as virtudes que cada um possui e manter aqueles sentimentos de auto depreciação, autoacusação, inferioridade, incompetência, pecaminosidade, culpa, rejeição, feiura, fraqueza, fragilidade e mais um sem-número de adjetivos pejorativos, a lista de desvantagens segue com: pessoas que sofrem desse distúrbio costumam ser ansiosas, têm medo de errar, sentem-se inferiorizadas diante de outros, o que pode gerar isolamento, dificuldade nas relações profissionais, afetivas, de amizade, enfim, em todos os âmbitos da vida.

    A longo prazo, elas podem desenvolver síndrome do pânico e/ou depressão por causa de sua ansiedade elevada, e até tendências suicidas, além de ter problemas cardíacos, digestivos, alergias, hipertensão arterial etc.

    A auxiliar financeira Nara Luanda (45) cita a experiência do cunhado. Ele tentou o suicídio, mas foi impedido por policiais rodoviários. Ele planejou tudo e ninguém percebeu a gravidade do estado. Estava sempre culpando a ex-mulher e achando que todos estavam contra ele, sem se dar conta de que o problema estava na falta de autoestima dele.

     

    Liderança e autoestima

    Autoestima promove autorrespeito, que resulta em um estado de dignidade interna. Quando alguém se sente digno, impregna os ambientes onde circula com qualidade moral que infunde respeito, consciência do próprio valor, honra, autoridade, nobreza.

    Quem tem essas características não precisa impor-se forçadamente. Essa é base da verdadeira liderança. Não são os cargos que oferecem a capacidade de liderança, mas essas qualidades são prerrogativas para exercer uma função de coordenação.

    Por isso os consultores e estudiosos dos ambientes de líderes e liderados afirmam que indivíduos no comando com elevada autoestima tratam os outros com ética, boa vontade e justiça. Veem cada membro da equipe como um colaborador e não uma ameaça.

    Respeitam e manifestam atitudes respeitosas para com o liderado, percebem as necessidades e as capacidades dos que estão na sua área de atuação e têm capacidade para vencer, criar, mudar o ambiente e abraçar novos paradigmas.

     

    Narcisismo e autoestima

    Narcisismo é uma palavra proveniente da antiga mitologia grega. Trata-se da conhecida história de Narciso, aquele rapazinho não muito esperto que se apaixonou pela própria imagem refletida nas águas de um lago e ali morreu admirando-se. O narcisismo se manifesta pela excessiva preocupação com a beleza física e com coisas para possuir, não para compartilhar com outros, mas para mostrar.

    A autoestima saudável não tem relação com esse estado centrado apenas num mundinho onde o valor mais caro é apenas a autogratificação. Trata-se de conhecer, desenvolver e apreciar os valores com os quais foi provido para ser feliz, criar um mundo feliz e alcançar objetivos dignos para si e para todos os demais sem medo.

    Nessa condição psicológica egoísta em que impera a adoração por si próprio, a visão fica turva. Pessoas com essa índole não enxergam a realidade e facilmente são tratadas como trouxas. Os elogios são os meios de manipulá-las.

     

    Contribuindo para a autoestima dos outros

    Assim como a própria autoestima é importante, a dos outros não é menos. A responsabilidade de construí-las e mantê-las é nossa. Atuamos através de pensamentos, palavras e ações e todos eles refletem estados afetivos e de humor, especialmente as palavras. O cuidado com as palavras é essencial, pois o seu efeito é, no mínimo, longo, durável.

    O jornalista Nilson Souza, do jornal Zero Hora (RS), relata uma historinha interessante. Segundo ele, do quanto uma palavra, um gesto ou uma maneira especial de tratar pode ser determinante na autoestima. O ex-jogador e comentarista da Globo, Paulo Roberto Falcão, me conta que quando foi fazer teste no Inter, juntamente com dezenas de meninos, ouviu o treinador falar ao seu irmão no final do treino: O Alemão tá plenamente aprovado. O Alemão era ele, que tinha cabelos loiros na cabeça. A frase marcou a sua vida. Aquele plenamente foi uma segurança que lhe garantiu uma carreira exitosa no futebol e na vida.

    Um campo cheio de atritos é o da correção. Alguém que vive corrigindo os outros de forma inconveniente, agressiva e pejorativa arruma muitos inimigos ou é abandonado, rejeitado. Uma vizinha de 59 anos fala sobre isso.

    A minha história me prejudicou e ainda repercute. Eu tinha uns quatro anos e meio, morava no interior e tinha uma tia que morava na capital, professora de uni importante colégio. Era uma figura endeusada. Era uma festa quando nos visitava. Numa dessas visitas, ela convidou meu irmão mais velho para passear e eu me escalei. Ela pegou meu irmão e saiu. Eu fui atrás tomando o pente na mão.

    Mais tarde, quando paramos para descansar, eu disse muito feliz: tia, me pêntia? Ela me chamou de burra, mandando aprender a falar direito. Que se dizia penteia e não pêntia. Até hoje, algo muito importante pra mim é a pronúncia correta das palavras. Qualquer erro chega a ferir meus ouvidos. Ainda me sinto inconveniente em muitas situações, como me senti naquele dia. Com certeza abalou profundamente minha autoestima.

    Pense nisso.

     

    Matéria publicada no site Alpha-Ômega