• 26 dez 16

Homem vive perigosamente

Homens morrem antes que as mulheres, por doenças não tratadas, acidentes, ...

Por: Olga Tessari
  • Mundo masculino – homem vive perigosamente!

     

    Entrevista com Olga Tessari 

    No cinema, quase sempre o sinônimo de personagem “poderoso e atraente” é o rodeado de mulheres, que fuma, bebe e pilota perigosamente. Também não sente dor, não chora, arrisca a vida até o limite, lutam como vilões e sempre vence. De recompensa, leva a mocinha, o prêmio em dinheiro e tudo de bom que a vida tem a oferecer.

    Apesar das mudanças no comportamento masculino a partir da inserção da mulher no mercado de trabalho — e estereótipos à parte —, por questões culturais a maioria dos homens ainda pensa que é super-homem.

    Infelizmente, a realidade tem pouca coisa em comum com o heroísmo das telas, como mostram os alarmantes números do Ministério da Saúde: homens vivem, em média, 7,6 anos menos que as mulheres. Morrem mais de doenças do coração, seguidas pelas cerebrovasculares e por homicídios. Também consomem mais álcool e perdem a vida em situações relacionadas ao abuso da bebida — quedas, afogamentos etc. —, e nos acidentes de trânsito representam 82% das vítimas.

    De acordo com o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid, 2006), a prevalência de dependentes de álcool também é maior para os homens (19,5% contra 6,9% das mulheres). Para cada seis pessoas do sexo masculino que fazem uso de álcool, uma fica dependente. Entre as mulheres, a proporção é de uma dependente a cada dez usuárias. “O alcoolismo é a válvula de escape que muitos homens encontram para tentar diminuir a tensão que eles mesmos se imputam de seremos provedores, valentes e fortes o tempo todo”, analisa a dra. Olga Tessari, psicóloga de São Paulo, que mantém o site www.ajudaemocional.com. Os homens brasileiros ainda saem na frente no consumo de tabaco (em todas as faixas etárias) e, entre os sedentários, 29,5% são homens (contra 23,5% de mulheres). A partir dos 65 anos, ultrapassam os 50%. Nos últimos cinco anos, o país ganhou 11 milhões de pessoas com excesso de peso e, considerada apenas a população masculina, 52,1% deles estão acima do peso, dado bastante associado ao sedentarismo e a hábitos alimentares inadequados.

    A pesquisa do Ministério da Saúde também mostra que, mesmo conscientes de alguma doença, a maioria dos homens só procura atendimento médico quando o mal já está avançado e têm que se internar. Essa questão, relativa à saúde pública, levou o governo federal a lançar, em 2009, a Política Nacional de Saúde do Homem, não só para facilitar e ampliar o acesso da população masculina aos serviços de saúde, mas para mudar a mentalidade do que todo mundo no convívio familiar já sabe: homem, além de se viver perigosamente, não se cuida.

    Para a psicóloga Olga Tessari, conforme o conceito de masculinidade ainda predominante — especialmente entre os mais velhos —, o homem acredita estar “imune” às doenças e não pode dar sinais de fragilidade. “O comportamento dos mais jovens está mudando e, embora não se possa generalizar, ainda pesa o fato de que, culturalmente, homem que é homem não fica doente, não precisa de ajuda para resolver seus problemas, não fala de suas dores nem compartilha seus medos”, explica. “Eles assumem com orgulho que não procuram os serviços de saúde. Como desculpa, ‘já sabem que o médico vai descobrir algum problema’.”

    Se os homens ainda resistem em cuidar do físico, discutir questões como relacionamento, ansiedade e depressão ainda não passa pela cabeça da maioria. No consultório da psicóloga, apesar demais de 50% dos pacientes serem do sexo masculino, ela concorda que apenas uma minoria procura ajuda especializada para tratar das emoções. “Muitos ainda acham que conseguem resolver seus problemas sozinhos, sem ajuda de ninguém. Muito menos de uma mulher, mesmo que ela seja profissional.”

    No entanto, uma parcela da população masculina na faixa dos 30- 40 anos, que já nasceu e foi criada em um contexto familiar em que o homem não era o único provedor da casa, não partilha dos mesmos pontos de vista de seus pais e avós. Também são mais preocupados com a aparência, praticam exercícios, utilizam filtro solar, são mais conscientes quando aos estragos provocados pelo fumo, pela bebida e pela má alimentação, vão ao dermatologista e ao esteticista para atender aos apelos de uma sociedade que valoriza cada vez mais o físico. Em resumo, se cuidam mais. “Essa geração tem um modelo em que homens e mulheres desempenham papéis mais igualitários em várias situações. Mas isso depende do conceito em que ele está inserido.”

     

    RESISTENTES ATÉ NA DOENÇA 

    A psico-oncologista Vera Anita Bifulco, coordenadora do Serviço de Psico-oncologia do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), explica que o ato de cuidar faz parte da essência feminina, primeiro com as brincadeiras da infância, depois na vida familiar, por meio da maternidade. “Ao contrário dos homens, a mulher não reluta em buscar coisas que julga serem melhores para sua saúde e qualidade de vida, entre elas, procurar o médico”, avalia. Enquanto isso, os homens, em geral, não se comovem com os apelos das campanhas preventivas e, mesmo diante de um diagnóstico de câncer, mostram resistência quanto ao tratamento. “Nesse aspecto, o comportamento é machista, do tipo ‘essa doença não é comigo’, ‘não me pega’ ou ‘eu me safo dessa’.”

    Uma das coordenadoras do livro Câncer – Uma Visão Multiprofissional (Editora Manole), a dra. Vera prega a participação ativa do paciente na busca do processo de cura, mas observa que muitos não se curvam a algumas exigências médicas em prol da saúde, enquanto a mulher entende e adere aos tratamentos com mais facilidade. De cada dez pacientes homens, apenas três ou quatro concordam totalmente com as orientações da equipe multiprofissional. Os outros mostram grande resistência em aceitar a doença e encarar mudanças, principalmente em hábitos de vida arraigados. Há casos de diagnósticos de câncer de pulmão em que, mesmo com o paciente fazendo quimioterapia, ele diminui o número de cigarros e barganha trocas, mas não abre mão do hábito de fumar. “Para eles, a qualidade de vida só existe e continua se não se privarem de prazeres, especialmente os de idade mais avançada. E não se rendem.”

    A profissional também observa que o homem em tratamento tem sempre uma “cuidadora” para tratar das questões alimentares do paciente e dos horários dos remédios — isto é, precisa de alguém que cuide dele. A mulher quase sempre assume o papel de cuidadora de si mesma, enfrenta a doença, se predispõe e costuma ser mais otimista. A mulher ainda observa e fala mais de suas emoções. “Tão importante quando o físico é resolver questões internas pendentes, que têm influência direta na melhora do sistema imunológico.”

    O dr. Evandro Fagundes, coordenador do setor onco-hematológico da Hematológica – Clínica de Diagnóstico e de Tratamento das Doenças do Sangue, de Belo Horizonte/ MG, explica que o impacto da descoberta de uma doença sanguínea é o mesmo para ambos os sexos. “Ao contrário de outras neoplasias, estas não possuem uma prevenção, mesmo para pessoas em dia com seus checapes.” No entanto, as mulheres reagem mais, verbalizam mais seus sentimentos, tristezas e temores, choram e são mais claras para pedir suporte. “Os homens não se abrem muito para os médicos, muitas vezes vão sozinhos ao consultório, até por não se curvarem às necessidades”, analisa.

    No decorrer do tratamento, o doutor observa ainda que muitos homens assumem um comportamento mais frágil, se entregam mais e se comportam como se as coisas estivessem sempre dando errado, sendo mais negativos até mesmo quando os efeitos são os esperados. “Não raro, os demais idade tentam disfarçar seu temor, dizendo que já viveram bastante, que estão lutando, porém estão preparados para qualquer coisa.”

    Entre os mais jovens, a independência mostrada em outras situações não é a mesma. Na faixa dos 30-40 anos, o dr. Evandro observa diferentes posturas, de frágeis a infantis, sendo que muitos deles também se mostram super dependentes dos pais. Entre os negativos, uns não querem o procedimento, outros acham que não devem fazê-lo. “Por isso, o médico tem de estar muito atento para apresentar e individualizar o tratamento.

     

    As barreiras para não ir ao médico:

    CULTURAIS 

    • Doença é sinal de fragilidade, não tem a ver com a condição do homem

    • Os serviços de saúde são para mulheres, crianças e idosos

    • Os homens não acreditam em profilaxia e prejudicam o trabalho de prevenção

     

    INSTITUCIONAIS

    • Os homens não são ouvidos adequadamente nas unidades de saúde, por isso frequentam pouco esses locais

    • Grande parte dos atendimentos é feita por profissionais mulheres, o que impede que os homens encontrem espaço adequado para determinadas questões

    • Falta de estratégias para sensibilizar e atrair os homens aos ambulatórios

     

    MÉDICA 

    • Consultas de duração curta, o que não ajuda a estabelecer uma relação médico-paciente ótima

     

    ESTOU VIVO GRAÇAS AO CÂNCER

    Aos 62 anos, mesmo já aposentado, José Walter da Costa ainda trabalha com contabilidade e planos de seguro em Taboão da Serra/SP, onde vive com a família. Também caminha 5 quilômetros todos os dias, pratica ioga cinco vezes por semana, faz aulas de violino, percussão e cavaquinho e participa de aulas de canto e do grupo vocal Além do Som, que se apresenta em hospitais e outras instituições. José Walter ainda encontra tempo para fazer parte de atividades relacionadas ao cinema e até para viver Tiago na encenação da Paixão de Cristo em sua cidade.

    Até o fim de 2006, a vida de José Walter não era assim, e ele também não era essa pessoa de agora, falante, calma e bem-humorada. Apesar de cardiopata (sofreu um infarto aos 46 anos), ele fumava, bebia, era sedentário, trabalhava muito, comia mal e se irritava facilmente. A mudança de postura aconteceu quando descobriu que estava com um tumor no intestino grosso. “Talvez o meu próprio modo de viver tenha precipitado essa doença. Mesmo depois do infarto, me considerava imortal. Um infarto é uma coisa corriqueira, não era como a palavra câncer.”

    O “durão”, como ele mesmo diz, perdeu o chão. Além da operação para a retirada do tumor, José Walter passou por 12 meses de quimioterapia e acompanhamento psicológico no Instituto Paulista de Cancerologia (IPC). Entre as sofridas idas e vindas de diferentes hospitais e as longas esperas, José Walter foi mudando seu modo de pensar. “Nunca me preocupei em encontrar um ponto de equilíbrio entre trabalho e lazer. Mas aprendi que a vida não era exatamente a que eu vivia. Desse momento em diante, nada mais me fez sair do sério. Foi pelo câncer que estou vivo.” Mesmo fragilizado, José Walter encontrou forças para escrever suas memórias e deixar um legado para os cinco netos, entremeando reflexões sobre a infância e a juventude com a doença na época presente. O que era para ser um assunto familiar transformou-se no livro Trajetória (Minha Editora), graças ao incentivo dos muitos profissionais que encontrou ao longo do caminho, especialmente a psico-oncologista Vera Anita Bifulco. “Os homens precisam deixar de lado o preconceito e fazer os exames necessários conforme a idade vai chegando. Ninguém é imortal.”

     

    Matéria publicada na REVISTA DA ABRALE por Patricia Rodrigues – JUNHO/JULHO/AGOSTO 2011