• 24 jan 17

Gastos Exagerados

O exagero pode indicar uma fuga dos problemas emocionais, um alívio da ansiedade.

Por: Olga Tessari
  • Gastos exagerados

     
    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Situação é mais complicada!

    Um problema que parece ser pouco notado pelas pessoas é o consumo compulsivo. Ele não tem nada a ver com endividamento puro e simples ligado a fatores econômicos ou sociais e possui muito mais semelhança a uma doença.

    Para o psicólogo clínico Artur Scarpato, 36, o consumidor compulsivo é aquele que compra mais do que necessita, para satisfazer com o ato da compra e de ter um objeto. “Quando olhamos mais perto vemos que estas pessoas buscam um alívio para sensações de carência e ansiedade, e o mal-estar é provisoriamente apaziguado com o comportamento de consumo. Porém como o comprar não é o que de fato a pessoa precisa, ela estará sempre comprando, num processo que tende ao infinito”, explica.

    Como é possível diferenciar esse tipo de quadro em relação a pessoas que não conseguem pagar suas dívidas por outros motivos? A essa pergunta a psicóloga e psicoterapeuta Olga Tessari fez outro questionamento: “Por que esta pessoa não consegue pagar as suas dívidas?”. Para Tessari, uma coisa é a pessoa ter dívidas por ter perdido o emprego ou alguma outra intempérie deste tipo. “Outra coisa bem diferente é aquela pessoa que contrai dívidas acreditando ser capaz de pagá-las no futuro, mesmo não tendo dinheiro disponível no momento para isso e nem sabendo de onde virá o dinheiro para tanto”, considera.

    Tessari indica que uma pessoa está nesse quadro a partir do instante em que ela “compra por comprar” ou porque “o preço estava bom”, sem que tenha alguma utilidade para se servir daquilo. “Ela não se preocupa como vai pagar, se tem dinheiro disponível para isso, vive comprando qualquer coisa e fica impaciente e ansiosa se passa algum tempo sem comprar nada. Vale dizer que o ato de comprar parece ‘aliviar’ a sua ansiedade”, diz.

    “A insatisfação e a infelicidade estão muito presentes porque a alegria da compra se esgota rapidamente e a pessoa logo sente necessidade de buscar um novo alívio no consumo, como um drogado atrás da promessa de prazer na próxima dose”, complementa Scarpato.

     

    Dificuldades em admitir problema

    Segundo Tessari, a pessoa com essa compulsividade em comprar nota o problema apenas quando não tem mais como conseguir dinheiro e seus gastos já estão sendo cobrados de forma tal que todos à sua volta questionem seu comportamento. Isso praticamente a obriga a rever suas contas. “Ela percebe seu problema quando a sua compulsão já ultrapassou todos os limites do seu crédito e, mesmo assim, muitas vezes, ela só admite o seu problema quando seus familiares ou companheiro(a) a pressionam ou a ameaçam de separação, de expulsá-la do convívio ou de denunciá-la”, afirma.

    Scarpato aponta que uma forma de ajudar é mostrar a complexidade do problema e como isso tem impedido que o alívio acreditado não deve chegar, pois o ciclo da dívida nunca chega. “Muitas vezes a pessoa admite o problema mas não lhe dá o devido valor”, alerta. De acordo com Scarpato, o consumo compulsivo é um estado de sofrimento psicológico que necessita atenção e cuidado profissional, pois as pessoas que possuem esse mal têm problemas afetivos compensados pela compra desenfreada. “É como se a pessoa tivesse um abismo de carências que ela tenta preencher com bolsas, carros, jóias, relógios, etc, mas que nunca satisfazem porque na verdade não é isto que está faltando. Parar e poder olhar para o vazio interior, para as suas reais necessidades é o que vai poder ajudar esta pessoa a interromper este ciclo perpétuo de sofrimento e ilusão”, finaliza.

     

    Matéria publicada no site do Padre Marcelo Por Rodrigo Herrero em abril/2005