• 23 jan 17

Meus 15 anos

O baile da debutante, comemoração dos quinze anos de vida, ainda é um rito de passagem.

Por: Olga Tessari
  • Meus 15 anos

     

    Meus 15 anos: sou debutante!

    Entrevista com © Dra Olga Tessari

     

    Comemorar aniversários é uma tradição.

    Festa, churrasco, sair pra jantar ou almoçar com a família, combinar uma noitada com os amigos… Não importa o que se faça, nem a idade a ser completada. Mais um ano de vida sempre merece um – Tim-Tim! – brinde. Só que, na verdade, a quantidade de primaveras importa, sim.

     

    Certas datas são especiais.

    As redondas, como 20, 30, 40 anos, são um marco, pois simbolizam o término de nada menos que uma década. E o primeiro aniversário, então? Ah, esse, apesar de nós, aniversariantes, não lembrarmos muito bem – a não ser por fotos –, é planejado com muito orgulho pelos nossos pais e festejadíssimo por toda a família. E, enfim, existe ainda o aniversário protagonista desta matéria, que é mais do que referência na vida de todas as meninas: os quinze anos. Aí logo se pensa em festas pomposas, com trajes finos e valsa. Se bem que parece que as debutantes estão fazendo cada vez menos questão de festejar conforme manda o figurino. Preferem gastar menos numa comemoração mais duradoura, viajando, por exemplo. Mais ou menos tradicional, o que é certo é que nenhuma mulher esquece o que fez em seus quinze anos. Afinal, o que faz dessa data tão marcante e especial?

    Mais do que um mero costume, a comemoração dos quinze anos é um rito de passagem. Antes que fique complicado, nós explicamos. Rito, nesse caso, se refere a uma cerimônia de caráter simbólico, “que segue preceitos estabelecidos” (segundo o dicionário Aurélio). O professor e gerente de ensino da Fundação Carlos Alberto Vanzolini, de São Paulo, Márcio Camargo esclarece: “Todos nós, ao longo da vida, passamos por momentos de grandes mudanças. Os ritos de passagem são os marcos destas mudanças, realizados externamente para que as pessoas possam elaborar, digerir e construir essas transformações interiormente”, ilustra Márcio. Esta é a importância dos ritos na nossa vida, apontar a passagem do tempo e até mesmo promover a aceitação da perda, como no caso dos rituais funerais. “O aniversário de quinze anos é um rito onde se comemora a passagem da menina para a mulher”, afirma Márcio.

    Mas é claro que as meninas, tão diferentes umas das outras, não se tornam mulher no mesmo período da vida – e muito menos assim, de uma hora para a outra. “A puberdade tem seu início por volta dos doze anos, podendo variar para menos ou para mais. Mas, em geral, aos quinze a garota já tem seu corpo na forma adulta, com seios, quadris definidos e já menstrua. Ou seja, já é moça e não mais uma menina”, classifica a psicóloga Olga Inês Tessari, lembrando que, de qualquer modo, a questão do amadurecimento é bastante individual. A reportagem saiu, então, em busca de personagens para descobrir as mais variadas formas escolhidas pelas debutantes de comemorar seu 15° aniversário e suas impressões sobre as experiências vividas.

    É muito comum os pais fazerem à filha a seguinte proposta: você quer uma festa ou uma viagem? Isso porque, como todo mundo sabe, festa de quinze anos não é uma reuniãozinha qualquer. É preciso que seja um verdadeiro baile de debutante, com cerimonial, valsa, champagne e Buffet fino. Enfim, um rio de dinheiro gasto numa noite só. Mas não importa! “Eu tive uma meeeegafesta! Na época meu pai ofereceu uma viagem para a Europa com toda a família, que sairia até mais barato. Mas eu não aceitei, porque eu queria muito a festa e a minha mãe também. Hoje, vejo que fui meio egoísta e às vezes fico na dúvida se valeu mesmo a pena”, revela a estudante de publicidade Fernanda Saboya, de 20 anos, que acredita que, com quinze anos, grande parte da sua personalidade já estava formada. “Só acho que eu era ainda muito tímida com as pessoas e não tinha jogo de cintura com situações desconhecidas. Mas, para mim, essa idade não foi um marco, não. Acho que a virada de menina para mocinha acontece antes”, opina Fernanda.

    Outra que não abriu mão de promover seu baile de debutante foi a jornalista Camila Pereira, de 23 anos. “Eu sempre quis festa. Todas as minhas amigas fizeram viagem e acharam minha escolha uma burrice. Mas não me arrependo nem um pouco”, garante Camila, que jura ter ficado com as bochechas doendo no final da festa de tanto rir. “Teve cerimonial, mas foi light. Minha família e minhas amigas falaram coisas fofas para mim e depois eu falei para eles. Não teve príncipe, não, mas dancei com meu pai, meu irmão, meu padrinho e meu avô. Passou um clipe no telão com fotos minhas desde pequeninha e isso foi muito legal”, conta a jornalista, que acredita que não existe felicidade maior do que reunir as pessoas queridas. “Quando tem um monte de gente que eu amo, reunida, feliz, se divertindo muito e, ainda por cima, tudo isso por minha causa, eu surto de alegria”, diz ela, lembrando que na época se achava muito madura. “Hoje eu sei que era uma criança”, revela.

    Representando a ala das que jogaram a tradição da festa pro alto e preferiram investir melhor o dinheiro da comemoração, está a estudante Rafaela Saldanha, de 21 anos. “Eu sou muito megalomaníaca, então ou eu queria uma festa no Copacabana Palace ou nada”, conta Rafaela, que resolveu, então, ir com a melhor amiga, também debutante, para os EUA. “Ficamos um mês lá, viajando de carro com uma moça que contratamos para nos acompanhar. Fomos para Califórnia, Los Angeles, Nova Iorque. Eu já tinha estado em Nova Iorque três vezes, já conhecia vários lugares lá. Teve um dia, que tínhamos três horas para ficar no shopping fazendo compras. Então, saímos e fomos para a rua, eu e minha melhor amiga, a gente com 15 anos, passeando em plena Fifth Avenue sozinhas. Foi o máximo!”, conta a estudante, que lembra dos seus 15 anos como uma data marcante, não tanto por causa do aniversário… “Com essa idade, eu sabia que queria ser designer, resolvi fazer intercâmbio, soube que a minha avó estava doente e ia morrer. Eu já era uma menina cheia de decisões e já tinha conquistado bastante a confiança dos meus pais”, afirma Rafaela.

    Pois é, desse privilégio os meninos realmente não compartilham. Para eles, os quinze anos é um aniversário como qualquer outro. “Não teve nada de especial no meu. Para minha irmã, sim, minha mãe fez uma festa animadíssima, foi lindo e me diverti horrores”, conta o engenheiro Marcelo Cortes, de 25 anos. Os ritos de passagem são criações culturais, por isso variam de uma sociedade para outra, podendo, inclusive, ser exclusivo dos homens ou das mulheres. “Em nossa cultura, o rito de passagem dos quinze anos é característico do sexo feminino. No caso dos meninos, a maioridade é o grande rito que marca a mudança da adolescência para a vida adulta”, esclarece Mário Camargo. Não é à toa que muitos rapazes ganham presentes pra lá de especiais no 18° aniversário. “Meus pais me deram um carro quando cheguei à maioridade”, conta Marcelo Cortes.

    Entretanto, essa história de rito de passagem talvez fizesse mais sentido antigamente. Para quem não sabe, em tempos mais remotos, a garota que completava quinze anos era apresentada pelos pais à sociedade. “O aniversário de quinze anos servia como um importante ritual para indicar a mudança da fase infantil para a reprodutiva. Depois de oficialmente apresentada, todos ficavam sabendo que havia uma nova mulher à disposição, digamos assim, para o casamento”, explica Olga Inês Tessari.

    Hoje em dia, todo esse significado parece ter sido perdido, porque, afinal, as relações sociais estão calcadas em valores que se modificaram muito com o passar do tempo. As próprias debutantes demonstram ter consciência disso. “Eu não vejo a comemoração dos quinze anos muito como rito de passagem, não. Isso é baboseira, fazemos festa para ser divertido mesmo”, opina Camila Pereira. E a estudante Fernanda Saboya reafirma: “As meninas estão amadurecendo cada vez mais cedo e a transição varia conforme a família. Acho que a tradição do 15° aniversário é um resquício que tende a desaparecer. A primeira menstruação e o primeiro beijo são marcos mais importantes atualmente”, diz ela.

    Para a psicóloga Olga Inês Tessari, realmente, nos dias de hoje, nenhuma grande mudança ocorre depois dessa tradicional comemoração. São outros os objetivos que estão por trás das festas de debutantes. “As garotas fazem festa para demonstrar status, serem o centro das atenções e até ganharem muitos presentes. Em geral, é isso que se tem visto, um ritual encarado como simples motivo de festa e exibicionismo. Mas é claro que existem exceções. Para algumas pessoas, o ritual de debutantes ainda tem um significado e simbolismo importante. Para um pai que tem dificuldade de enxergar que sua filha cresceu, já é uma mulher e será cortejada por outros homens, a existência de desse rito pode ser bastante útil, ajudando-o a aceitar esse processo mais que natural”, finaliza Olga Inês Tessari.

     

    Matéria publicada no Site Bolsa de Mulher por Laura Jeunon em julho/2005