• 24 dez 16

Pai separado e filhos

O que acontece depois da separação? Como o pai pode agir com os filhos?

Por: Olga Tessari
  • Pai separado e filhos

    Pai separado e filhos

    Criar bem um filho. É o que todo pai espera de si mesmo.

    Como fica a relação entre o pai separado e seus filhos? 

     

    A psicóloga paulista Olga Tessari fala sobre a relação dos filhos com os pais separados.

    Como agir com os filhos quando o casamento acaba? Como ficam os encontros familiares? É possível manter uma relação saudável com as crianças, mesmo os pais vivendo separados? São questões que estão sempre na ponta da língua diante de psicólogos e psicoterapeutas. Eles alertam porém que toda separação de pais acarreta reação dos filhos. É ruim para eles que os pais se separem, mas é muito melhor a ausência física do pai do que enfrentar conflitos diários entre ele e a mãe.

    Educação, relacionamentos após a separação, traumas, relação afetiva dos filhos com o pai e a mãe separados, como enfrentar a sexualidade são temas abordados na entrevista que a psicóloga paulista Olga Inês Tessari concedeu ao O POVO, por telefone. Ela é autora de vários trabalhos sobre esses temas que podem ser conferidos em seu site na Internet: www.olgatessari.com

    A seguir, confira os trechos da entrevista:

     

    O POVO – Como deve ser trabalhada a separação dos pais? É possível minimizar nos filhos o trauma da separação?

    Dra Olga Tessari – Na verdade, a separação dos pais deve ser uma coisa tratada em particular, nunca na frente dos filhos. Por que o grande problema é quando os pais discutem na frente das crianças que ficam querendo tomar o partido de um ou de outro. Muitas vezes o pai ou a mãe usa a criança como forma de chantagem contra o outro. Então o ideal seria que o casal resolvesse a separação longe da presença das crianças. E aí o fato, depois de resolvido, seria comunicado a elas, mantendo um clima de cordialidade.

     

    OP – No caso dos filhos presenciarem uma separação conflituosa dos pais, isso pode influir na vida futura deles?

    Dra Olga Tessari – Sim. Numa separação traumática, onde os pais usam as crianças, um contra o outro, pode haver distúrbios emocionais que influenciarão no desenvolvimento da criança. O primeiro sintoma de que ela não está bem emocionalmente é percebido na escola. Ela chora, há crianças que se tornam mais agressivas, brigam com os outros coleguinhas.

     

    OP – E na escola, qual deve ser o tratamento dado às crianças que estão enfrentando a separação dos pais?

    Dra Olga Tessari – O ideal seria que a escola tivesse conhecimento de que os pais estão juntos, separados ou se estão se separando. Hoje em dia, as escolas tem por hábito saber do que acontece na casa da criança para poder entendê-la melhor. Elas entrevistam o pai e a mãe, para saber como é o relacionamento em casa. Mas, o ideal seria que a escola tivesse conhecimento e até observasse a criança e, diante de qualquer problema, encaminhasse esta criança para o psicólogo. O quanto antes você começar a resolver o problema da criança, melhor.

     

    OP – Nesse caso, a ida ao psicólogo é muito importante?

    Dra Olga Tessari – Sim. Porque a criança, ainda não tem aquele arcabouço emocional que o adulto tem. Muitas vezes nem o adulto sabe digerir muito bem uma determinada situação, imagine uma criança que tem nos pais o seu suporte, a sua “tradução” digamos assim da realidade e, de repente, um dos dois vai embora. Ela não vai saber lidar com isso e sofre muito.

     

    OP – Mas, não é melhor a criança conviver com os pais separados do que no meio de uma relação cheia de brigas e discórdias?

    Dra Olga Tessari – É muito melhor. O filho, mesmo que os pais disfarcem, percebe quando o clima não está bem. Eu já ouvi uma criança dizer: ‘eu não sei porque meu pai e minha mãe não se separam. Os dois não se dão bem’. As crianças são capazes de encarar a separação com muito mais naturalidade do que os adultos.

     

    OP – Como os pais devem agir com relação a educação das crianças, no caso de estarem separados?

    Dra Olga Tessari – Quanto à educação, os pais, estando juntos ou separados, têm de falar a mesma língua, ou seja, concordarem entre si. Então, por exemplo, se o pai disse não, a mãe, por mais que discorde, na frente da criança ela deve falar: ”papai disse que não”. Eles não podem discordar entre si diante da criança, porque ela percebe e começa a jogar com os pais. Um exemplo: o filho vai pedir ao pai para jogar videogame e ele diz não.A criança então vai pedir à mãe porque sabe que ela vai dar o videogame pra ele e pronto. A criança é muito inteligente. Ela percebe muito bem quando pode manipular seus pais a seu favor. Então os pais devem ser muito coerentes. Mesmo separados, eles devem conversar. O pai, que normalmente é quem vê menos o filho, deve pedir para ver os cadernos, conversar com ele, saber se estar tudo bem. Pai e mãe têm de concordar um com o outro. Se eles discordam de alguma coisa que conversem em separado, longe dos filhos. Na frente deles os pais nunca podem tirar a autoridade de um e nem de outro.

     

    OP – Ainda existem casos em que a mãe joga a culpa da separação nos filhos?

    Dra Olga Tessari – Existem. Infelizmente ainda há mulheres que engravidam pra se casarem ou para manterem seus casamentos. Para elas, quando o casamento chega ao fim, acaba a necessidade de ter o filho. Porque esse filho era o elo que a ligava ao marido. Muitas vezes, ela passa a não tratar bem essa criança, passa a desprezá-la, a achar que ela é a culpada da separação.

     

    OP – E qual deve ser a postura da mãe, mesmo que ela fique com raiva, não queira a separação?

    Dra Olga Tessari – Ela não pode é falar mal do pai. Porque uma coisa é o que o marido dela está fazendo com ela. Outra coisa é o pai dos seus filhos. O melhor é ficar neutra. Não ficar sondando. Por exemplo, tem mãe que manda as crianças saírem com o pai quando percebe que ele vai namorar, manda as crianças passarem o fim de semana com ele. Depois fica perguntando pra onde ele foi, o que falou, o que fez. Isso não deve ser feito nunca.

     

    OP – E quando o pai fica com a guarda dos filhos. Como é a reação dele? Procura ajuda de especialista?

    Dra Olga Tessari – Não necessariamente. Só se ele perceber que não está conseguindo dar conta do recado, não está conseguindo ter o controle da situação. Se ele não está conseguindo lidar bem com as crianças, conviver bem com elas. Mas, normalmente, o pai que assume cuidar das crianças é uma pessoa bem equilibrada, centrada, que vai educar bem os filhos.

     

    OP – E o autoritarismo e machismo, ainda são características muito fortes dos pais?

    Dra Olga Tessari – Isso depende muito do lugar onde a gente está. Depende da cultura, dos costumes, do ambiente familiar. Mas, em geral, os homens hoje estão menos machistas do que eram antes. Até porque a mulher teve muitas conquistas. Hoje, ela trabalha fora, divide as funções domésticas com o marido.

     

    OP – Pode-se fazer um perfil do pai atual?

    Dra Olga Tessari – O pai atual é mais participativo. Ele leva as crianças pra escola, faz o jantar. Participa mais no todo. Acompanha o desempenho escolar das crianças e sai pra passear com elas.

     

    Serviço: Olga Tessari – Psicóloga – Psicoterapeuta – Pesquisadora – Supervisora – Consultora – Escritora – Palestrante – Consultório em São Paulo/SP – Telefone: (11) 3275.3066 www.olgatessari.com

    Matéria publicada no site do Jornal O Povo em junho/2006

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