• 04 fev 17

Planejar uma traição

O que leva uma pessoa a planejar uma traição? Por que trair? Quais são os motivos?

Por: Olga Tessari
  • Planejar uma traição (de caso pensado)

     

    Você conhece alguém que costuma planejar uma traição?

    Você planejaria a traição?

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Faça o teste e veja se você resiste a tentações

    Tem gente que trai uma vez, sente a culpa e nunca mais repete o erro. Já outras pessoas fazem do ato um estilo de vida. Tudo por debaixo dos panos, é claro, porque infidelidade requer muita discrição, isto é, mentiras – ou, no mínimo, muitas omissões. Pois bem, alguns conseguem distinguir um tipo de traição de outra e, às vezes, é possível até relevar.

    No entanto, há quem não suporte ouvir a palavra T-R-A-I-Ç-Ã-O – ui, dá até arrepio! Quanto mais da boca do parceiro, se o danado se acusar. Agiu sem pensar? Caiu em tentação? Tudo bem, todo mundo erra, todos têm seus dias ruins, a gente pisa na bola, mas, se foi de caso pensado, se o “crime” foi planejado nos mínimos detalhes… Aí, sai de baixo, é só uma questão de tempo até a farsa ser descoberta e o circo pegar fogo. E pega!

    Susana Martins*, agrônoma, já foi vítima do “cúmulo da cara-de-pau”, como ela mesma diz. “Meu casamento não estava indo muito bem, sei disso, mas daí a descobrir que o seu parceiro te trai com a vizinha, inclusive nas escadarias do prédio, é fogo. E eu fui a última a saber, porque o porteiro já tinha pego os dois no flagra, mas não me contou nada.”

    “Depois, meu marido, agora ex, veio confessar o que ele chama de ‘culpa’, mas não acreditei que existisse um pingo de consciência pesada ali. Marcar um encontro quase todo dia com a vizinha, ao meu ver, não é coisa de impulso, é caso pensado mesmo. Isso não perdoo!”, revolta-se Susana, que armou o maior barraco no prédio, com direito a cenas clássicas de filmes e novelas. “Cortei, sim, as roupas dele, joguei coisa pela janela, quebrei vaso. Na hora da raiva, a gente faz loucuras”, admite a agrônoma.

    Os homens são educados a não desperdiçarem nenhuma chance de demonstrar sua masculinidade e sexualidade. Por isso, a tolerância com a traição masculina sempre foi maior do que com a feminina. Mas o mito ainda presente é de que os homens traem mais. Será?

    E para quem pensa que só mulher é traída, homem também sente dor na testa. Gustavo Rebelo*, gerente de vendas, que o diga! A ex-namorada o traiu com… o ex! E, ao que parece, a coisa toda foi muito bem planejada. “Ela me disse que ia viajar com as amigas, mas omitiu que no pacote estava incluído o ex-namorado”, diz Gustavo.

    “Quando voltou, me confessou tudo, entre lágrimas e soluços. Disse que os dois já tinham comprado as passagens há meses, reservado um quarto de casal no hotel e que ela só tinha feito isso porque estava confusa e precisava passar uns dias com ele para colocar os sentimentos no lugar”, conta o gerente de vendas, que ficou arrasado.

    “Meu chão caiu. As mulheres acham que, só porque somos homens, vamos aguentar o tranco, mas não é bem assim. Elas próprias são muito machistas e esquecem de que ninguém tem coração de pedra”, indigna-se Gustavo.

    Freud explica

    Para a traição, não existem justificativas, mas sim motivos já bastante conhecidos que levam a trair: necessidade de autoconfiança, vaidade, insatisfação no relacionamento, carência, aventura, status, vingança, trair para ter certeza que ama, porque a grama do vizinho é mais verde, pela sensação de liberdade, poder, perigo. São infinitos os motivos, mas a antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mirian Goldenberg, autora de Infiel: notas de uma antropóloga (Editora Record), prefere ressaltar os culturais.

    “A cultura brasileira estimula a infidelidade. De acordo com a minha pesquisa, os homens se inserem no quadro de machistas, galinhas e infiéis. Mas a questão é que tanto eles quanto as próprias mulheres acreditam neste modelo de masculinidade e acabam por reforçá-lo”, explica Mirian.

    O sexólogo, terapeuta sexual e diretor do ISEXP (Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática), Celso Marzano, faz dessas as suas palavras, e acrescenta: “Os homens são educados a não desperdiçarem nenhuma chance de demonstrar sua masculinidade e sexualidade. Por isso, a tolerância com a traição masculina sempre foi maior do que com a feminina. Mas o mito ainda presente é de que os homens traem mais. Será?”, diz Celso.

    Segundo a psicóloga Olga Inês Tessari, sim, aparentemente quem trai mais é o homem, “Mas as mulheres estão se tornando mais independentes e, por isso, o número de traidoras vem crescendo bastante”. Já para Celso Marzano, o sexo dito frágil passou a assumir uma postura diferente em relação à sua expressão sexual. Portanto, ninguém está livre do pecado: homens e mulheres estão, ambos, sujeitos a puladinhas de cerca.

    Mas, de acordo com Roberto Andrade*, contador, elas são mais infiéis. “Se não traem mais, são as mulheres, pelo menos, que planejam mais. Homem vai por impulso, sabe? Nem pára para pensar e, quando vê, já está na cama com outra sentindo a pior culpa do mundo. A gente perde o sono, tem crises com a nossa consciência e, se traímos de novo, juro, não é nem pelo prazer, mas como um consolo para tanto sofrimento.”

    “Mulher não. Faz tudo de caso pensado. Quando está disposta a trair, toma banho, se perfuma, se produz e ainda escolhe o motel. Não adianta nem o marido trancá-la no armário, porque, quando mulher quer, sai de baixo, ela te trai até com o cabide”, opina Roberto.

    Já Ana Ramos*, assistente de marketing, acredita que não é a mulher que trai mais do que o homem. “É que a mulher, realmente, é mais discreta. O homem é muito falastrão, trai e quer espalhar o feito para Deus e o mundo, contar para os amigos que pegou a gostosa do trabalho. A mulher não, fica na dela e, se bobear, nem a melhor amiga fica sabendo que ela trai o marido, porque, quando a gente trai, sentimos vergonha do que fizemos. O sentimento de culpa definitivamente não compensa o prazer de um beijo nem do sexo”, diz Ana.

     

    Traição? Ah, normal

    Para a psicóloga Olga Inês Tessari, outra questão importante é que a instituição do casamento está mudando. “Se antes era ‘cuidado, fulano(a) é divorciado(a)’, hoje já não tem tanta importância quem traiu ou quem foi traído(a). Infidelidade já não é algo tão condenável”, ressalta a psicóloga.

    O advogado Mateus Resende* é o típico “traí, sim, e já fui traído também”. “Não que eu ache legal, mas faz parte, entende? Às vezes você precisa de uma adrenalina a mais, de uma emoção mais forte. E também não dá para beijar, nem fazer sexo, com a mesma pessoa a vida inteira. É por isso que tenho relacionamentos extraconjugais e, é claro, planejo cada passo, porque amo demais a minha esposa e não quero que ela descubra”, garante Mateus.

    E isso às vezes é bom”, afirma a psicóloga Olga Tessari. “Encontros fortuitos podem muito bem servir para fortalecer a relação”, garante. Verdade ou não, o que deixa Mara Duarte*, administradora, irritada é quando não há consenso. “Se o casal acha necessário trair, O.K., ótimo, porque os dois decidiram assim, mas um não tem o poder de decidir pelo outro. Foi por essa razão que me divorciei. O safado chegou a me propor um swing – troca de casais – sabendo que sou totalmente contra. Realmente, não dá para levar a vida com alguém que diz que te ama de dia e que, à noite, vira o rei da selva”, pondera Mara.

     

    Descobrindo a traição

    Primeiro, faça um rápido diagnóstico da relação. “Relacionamentos monótonos, que caem na rotina, sem fantasia e imaginação, são convites ao adultério. Além disso, pessoas insatisfeitas ou com a auto-estima abalada e uma vida sem emoções tornam-se fragilizadas e, de certa, forma suscetíveis a novas situações que tragam adrenalina, excitação e sensações desconhecidas”, avisa o sexólogo Celso Marzano.

    Segundo ele, se o relacionamento estiver ruim, com muitas discussões e agressões verbais, gerando muita ansiedade e tristeza, a traição também pode aparecer, nem que só como um pensamento passageiro na cabeça do parceiro. Daí para as vias de fato pode ser um pulo.

    Se a suspeita anda te atormentando, chegou a hora de tirar a prova real. Todo homem ou mulher deixa pistas pelo caminho da traição, então não será muito difícil você perceber se está ou não sendo traída. Basta observar com atenção o comportamento do parceiro, que facilmente muda quando ele está sendo infiel.

     

    Veja, agora, as 10 pistas de uma traição, tanto de homens quanto mulheres.

    Fique de olho!

    • Expressão corporal: quando a gente mente ou engana, geralmente o corpo tende a nos denunciar. Encolhemos os ombros, piscamos muito e enrugamos a testa.

    • Evidências: marcas no corpo, na roupa e cheiros estranhos.

    • Telefonemas estranhos, sem explicação ou lógica, e, quando atendidos, geram nervosismo, tremores, mudança de tom de voz, ansiedade evidente e saída do ambiente.

    • Mudança de comportamento e de atitudes no dia-a-dia.

    • Mudança no horário de sair ou de chegar em casa.

    • Disfunções sexuais: podem ter como causa a culpa, dor na consciência, etc.

    • Sugestão, que não médica, do início de uso do preservativo.

    • Vaidade: do dia para a noite, começa a passar mais perfume, comprar roupas novas e se matricula numa academia.

    • Dinheiro: começa a esconder as contas ou passa a recebê-las no trabalho para esconder gastos suspeitos, números de telefone “estranhos” que chegam na cobrança etc.

    • Ele ou ela se incomoda de ver você muito quieto(a). Pode ser culpa, medo de que você desconfie da traição.

     

    Se o seu namorado ou marido apresentou alguns desses sinais, não se desespere. Pode ser alarme falso, mas vale uma investigada! No entanto, o importante é, acima de tudo, aprender a dialogar. “O DR (discutir a relação) e o DRS (discutir relacionamento sexual) assustam, mas é com o diálogo que se aprende a aceitar o outro como ele é, encontrando caminhos para a solução – e mesmo prevenção – de problemas”, finaliza Olga Tessari.

    * os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

     

    *Daniela Pessoa é nossa correspondente em Paris. Do conforto de nossa redação, ela saiu para se aperfeiçoar na língua de Napoleão, enquanto isso, ela relata para a gente impressões e notícias da Cidade-Luz

     

    Matéria publicada no site Bolsa de Mulher por Daniela Pessoa em 25/09/2007