• 05 fev 17

Traição traz sofrimento

A traição conjugal, tão eterna quanto o amor e o sexo, ainda provoca dor e separação.

Por: Olga Tessari
  • Traição traz sofrimento

    Infidelidade: o sofrimento dos casais diante da traição

    A traição traz sofrimento?

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Traição traz sofrimento – A história constrangedora dos Clinton fez muitos casais se remexerem desconfortáveis em suas cadeiras, mas lançou perguntas saudáveis sobre o significado do poder e da fidelidade – ou da infidelidade – neste final de milênio. Como uma colcha feita de retalhos de várias épocas, as relações entre homem e mulher apoiam-se em comportamentos antiquíssimos e novíssimos.

    A traição conjugal, tão eterna quanto o amor e o sexo, ainda provoca dor e separação. As mulheres ainda são mais tolerantes que os homens na condição de traídas, mas começam a perceber que o perdão é uma escolha e não mais um dever. Ninguém deixou isso tão claro quanto Hillary Clinton.

    Segundo a psicoterapeuta Olga Inês Tessari, são vários os fatores que levam à traição: questões culturais, carências, insatisfação em relação a desejos e expectativas com o (a) parceiro (a), vingança, a busca pelo novo, o estímulo provocado pela sensação de perigo, ou mesmo de poder. “A idéia de posse existe em quase todas as relações estáveis e as cobranças de fidelidade são normais e aceitas pela sociedade.”

    Inúmeras são as pessoas que já passaram pela experiência de serem traídas. Embora existam diversos tipos de traição, a da pessoa amada, segundo relatos, é a mais difícil de ser superada. São vários os motivos que levam uma pessoa a trair.

    Para Olga Inês Tessari, psicóloga e psicoterapeuta desde 1984, “a insatisfação no relacionamento, o orgulho, a falta de autoestima, de romance, aventura e emoção acabam dando lugar à rotina. Coisas como pagar as contas, hora para isso ou para aquilo quebram o clima gostoso do namoro”, explica Olga, afirmando que essas são justificativas usadas pelos que buscam relacionamentos extraconjugais.

    Embora a modernidade tente mostrar que o casamento é algo antiquado, e muitas pessoas já o tenham abolido, são muitos os que ainda sonham com o matrimônio. Porém, a psicóloga destaca que “há gente se casando por uma questão de segurança financeira ou por medo de ficar para “titia”. Isso pode levar a pessoa a trair no casamento, porque, quando não há amor, há probabilidade de traição”, revela.

    A Síntese dos Indicadores Sociais 2005 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o brasileiro está casando mais. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio (Pnad 2004), o número de casamentos no País cresceu 7,7% e os divórcios tiveram queda de 3,7% em relação a 2003. O número de separações judiciais – dissolução legal da sociedade conjugal – foi 7,4% menor que no ano anterior.

    Mesmo com a queda dos casamentos desfeitos, a traição é um problema que aflige muitos; no entanto, não há estatísticas que indiquem que os homens traem mais do que as mulheres, porque as coisas estão equivalentes. “Atualmente, as mulheres estão se igualando aos homens. Todavia, elas parecem estar conseguindo disfarçar melhor, pois mesmo com o avanço da mulher na sociedade, a maioria ainda tem mais a perder do que o homem, no caso de uma separação”, destaca.

    A independência feminina promoveu mudanças na mulher em muitos aspectos da sociedade, especialmente no que se refere ao mercado de trabalho. Atualmente os casais são mais cúmplices, construindo e provendo o lar em igual proporção. Ao trair, o homem sente destruir o vínculo de lealdade com alguém que divide tudo com ele. E há ainda a possibilidade de a mulher sair de casa e abandoná-lo se souber do caso – o que era uma atitude improvável alguns anos atrás – e a mudança na relação com os filhos.

    Parece que ter uma aventura fora de casa significa uma vergonha para o homem. Agora ,o homem que trai sente que faz algo errado, enquanto antes isso não era nem colocado em questão. Entretanto, as pesquisas ainda revelam que a maioria dos homens é infiel, mas divergem sobre o número de mulheres que traem.

    O resultado é de que 47% das mulheres e 60% dos homens são infiéis e alguns psiquiatras constatam que 67% dos homens e 23% das mulheres já traíram o parceiro. Mensurar dados sobre infidelidade é tarefa complicada. Não há como verificar se quem responde às pesquisas está mesmo dizendo a verdade, nem há como garantir que a presença do entrevistador não influencia a resposta do entrevistado e, ainda, muitas vezes, o questionário é respondido na frente do parceiro.

    Homens e mulheres, entretanto, encaram a traição de maneira diferente. Nas pesquisas entre as respostas mais frequentes dos homens estão: por se sentirem atraídos sexualmente e porque as circunstâncias lhes foram favoráveis. Poucas têm a ver com amor ou envolvimento afetivo. No caso das mulheres, os motivos mais citados foram decepção, desamor e raiva do parceiro.

    Por ser polémica até a raiz, a infidelidade suscita uma série de mitos infundados. Um deles: o de que a maioria das traições destrói os casamentos. De acordo com as pesquisas, cerca de 30% dos traídos terminaram a relação. O resultado revela que a maioria absoluta de homens e mulheres procura esquecer o que passou. O maior obstáculo é, sem dúvida, conseguir ultrapassar o choque inicial.

    Infidelidade é um dos poucos assuntos sobre o qual a civilização ocidental é intolerante, por envolver mentira, decepção e o rompimento de um pacto muito forte entre o casal. No entanto, é possível superar o trauma e, em muitos casos, até sair do problema com a relação fortalecida.

    Nos últimos tempos, uma série de explicações biológicas tem aparecido para justificar a infidelidade. Um livro recém lançado nos Estados Unidos defende a tese de que a traição, seja entre humanos, pássaros e até pulgas, é regra. Na natureza, a monogamia é rara. O Mito da Monogamia: Fidelidade e Infidelidade em Animais e Humanos, escrito pelo zoólogo e psicólogo David P. Barash e pela psiquiatra Judith Eve Lipton, diz que até mesmo os cisnes são infiéis.

    Outra tese polémica é a do médico Stephen Emlen, da Universidade Cornell. Emlen afirma que nove entre dez mamíferos são infiéis. “A verdadeira monogamia é muito rara”, diz.

    Segundo ele, há dois tipos de monogamia: a genética e a social. No primeiro caso, a fidelidade é uma excepção. Segundo Emlen, apenas uma espécie de macaco é fiel. No caso da monogamia social, o casal está junto com um objectivo definido: criar os filhos. É uma decisão deliberada dos parceiros.

    Especialistas acreditam que a fidelidade se mantém graças ao mito de que espécies cujas proles foram criadas por pais casados vivem melhor. Seria uma justificativa da monogamia humana.

    O professor Tim Spector, investigador do Hospital St. Thomas’s em Londres, estudou duplas de mulheres gémeas e afirma que se uma delas tivesse um histórico de infidelidade, as chances de a irmã apresentar o mesmo comportamento seriam de 55%, maior do que a média de mulheres que traem seus parceiros que é de 23%. Ele também relata que a infidelidade não é somente regulada pelos genes, mas também é influenciada pelo comportamento social: como desejo de aventura ou outras necessidades relacionadas com a personalidade.

    Outro estudo científico publicado pela revista britânica “Nature”, afirma que alterando-se um único gene pode-se regular o comportamento notoriamente promíscuo de roedores em companheiros fiéis e monogâmicos.Não sabemos porém se no ser humano também funciona assim, pois o comportamento sexual e sentimental humano é moldado pela interacção entre complexos factores ambientais e culturais com não apenas um, mas possivelmente diversos genes.

     

    Matéria publicada no site de Aninha Camelo em 13/10/2008