• 27 fev 17

Casar ou investir na carreira?

Estudar, investir na carreira profissional, conseguir um bom emprego, sair da casa dos pais ...

Por: Olga Tessari
  • Casar ou investir na carreira?

    As prioridades mudaram a relação dos jovens …

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Muitas meninas encaram desafio da vida a dois bem cedo, contrariando a tendência atual de postergar o casamento.

    Estudar, ter tempo para investir na carreira profissional, conseguir um bom emprego, sair da casa dos pais.

    Com tantas responsabilidades e novas prioridades da vida moderna, o que não faltam são motivos para adiar o casamento.

    Tanto que os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a média de idade dos noivos está subindo. Em pouco menos da metade de todas as uniões realizadas no país entre 2006 e 2008, 44,9%, 44,55% e 42,47%, respectivamente, a noiva tinha entre 15 e 24 anos.

    Há quatro anos, a idade média do primeiro casamento era de 25,4 anos para as mulheres contra 28,3 anos para os homens. Em 2008, o índice subiu: 26 para elas e 29 para eles. Ainda assim, é muito expressivo o número de jovens que decidem trocar alianças.

    Especialistas e garotas que descobriram, ainda muito jovens, as maravilhas – e dificuldades – de ser casada. O que justifica tanta pressa em experimentar o vestido de noiva, diante de tantas possibilidades da vida moderna, afinal?

     

    À moda antiga

    Ana Paula de Araújo Lima é tradicional, mesmo com apenas 25 anos. Aos 19, a estudante resolveu que era a hora de se casar, de véu e grinalda e com tudo mais a que tinha direito. A cerimônia foi em agosto de 2004. “No início, foi um choque”, relembra. O estranhamento não durou muito tempo, uma vez que as duas famílias já eram amigas antes mesmo de Ana Paula vir ao mundo. “Ele morava nos Estados Unidos e meus pais não me deixaram ir”, explica. “O que mais pesou para a gente se casar foi a vontade de morar junto.”

    Mas nem tudo são flores. Pela pouca idade e ainda sem uma vida profissional estabelecida, as contas foram o principal obstáculo. “Hoje, faço estágio, mas estamos conseguindo administrar bem”, acredita Ana Paula. Já os cuidados com a casa não são um problema. Acostumada a ajudar os pais desde criança com os afazeres domésticos, a estudante tira de letra algumas atividades que seriam verdadeiros bichos-de-sete-cabeças para outras jovens, como cozinhar. Outra vantagem de estar casada, para Ana Paula, é manter o foco. “Não queria ser sustentada pelos meus pais até os 30 anos. Amadureci, até profissionalmente, com o casamento.”

    E o casamento vai muito bem, obrigada. “As conquistas que você tem com o seu parceiro, a união, poder dividir os momentos felizes e tristes é a melhor parte”, entrega Ana Paula. Para ela, não há uma idade certa para encontrar um grande amor e fazer juras eternas. Mas, e as experiências da juventude? “Nunca gostei dessa história de ‘ficar'”, diz. “Acho que isso de não aproveitar a juventude é conversa. Faz diferença para quem não gosta de namorar, de ter um relacionamento fixo”, conclui.

     

    Ainda um conto de fadas

    Na opinião da psicóloga e escritora Olga Tessari, ainda há mulheres que se casam para escapar da pressão familiar ou para ter uma vida mais estável – caso de garotas de origem humilde que se unem a homens abonados, por exemplo. Entretanto, desde pequenas, elas estão acostumadas a escutar histórias sobre príncipes em cavalos brancos, amores eternos e castelos luxuosos. Nos contos de fadas, o casamento aparece como a garantia de viver o tão esperado final feliz. As histórias são antigas, mas até hoje servem como inspiração.

    Para Olga Tessari, o principal motivo que leva moças com menos de 25 anos a jurar amor eterno ao parceiro seria, justamente, encarar o casamento como ponto alto de todas as conquistas da vida. “Por incrível que pareça, boa parte das mulheres ainda acredita que a felicidade plena se consegue com o casamento”, reforça Olga. “Infelizmente, elas buscam viver em função do seu homem.” Inebriadas pelo chamado Complexo de Cinderela, moças que teriam outras formas de conseguir a tão almejada liberdade se rendem aos encantos do casamento idealizado. “Elas acabam desejando uma cerimônia com toda a pompa, justamente por considerar esse momento o ápice de sua felicidade”, explica a psicóloga.

    Além dos apelos das empresas casamenteiras, Olga Tessari destaca a educação recebida dentro de casa e a cobrança do meio social como os dois outros fatores que mais influenciam na decisão de casar cedo. O que poderia ser considerada uma forma de nadar contra a corrente torna-se, então, um paradoxo. “Hoje em dia a sociedade aceita um pouco melhor a mulher independente e solitária, embora ainda cobre dela o seu papel de esposa e mãe”, compara.

    Existiria, então, uma idade considerada ideal para casar? A resposta é relativa. “O casamento deve ser cogitado depois que a jovem já tenha vivido e tido várias experiências na vida”, arrisca Olga Tessari. Antes de se comprometer, conhecer pessoas novas, viajar para lugares diferentes e manter os amigos próximos – enfim, aproveitar a vida de solteira – pode dar mais segurança antes de tomar tal decisão. “Jovens que se casam cedo deixam de viver muitas coisas. Depois vão querer resgatar o tempo não vivido”, reforça Olga Tessari.

     

    O preço da independência

    Em dezembro de 2004, Fernanda da Silva Dias iniciou um casamento que duraria cinco anos. Na época, a hoje técnica em enfermagem tinha 18 anos e o ex-marido, 23. “Casei só no civil, mas entrei com a papelada aos 17, com autorização dos meus pais”, detalha. A decisão de trocar alianças foi por amor. Hoje, porém, aos 23 anos, Fernanda analisa e encontra outros motivos para a união. “Eu tinha certeza que queria casar porque gostava dele”, reforça.

    Mesmo ainda tão jovem, Fernanda não encontrou resistência por parte da família. Na verdade, a própria família foi um dos motivos que a impulsionaram a sair de casa e a constituir a sua própria. “O casamento foi uma maneira de fugir da vida que eu tinha”, confessa. Assim como muitas garotas de sua idade, Fernanda queria mais independência. Mas ela deixa claro: se sentia presa, mas não queria ser livre apenas para se divertir ou namorar. “Eu queria estudar, ter uma carreira”, explica. “Quem me educava não dava essas oportunidades.”

    Com o casamento, a tão sonhada oportunidade apareceu, em forma de apoio do então companheiro. Dividir os gastos da casa por dois também ajudou. Com marido e mulher empregados, a vida profissional de ambos progrediu – sucesso que seria mais complicado atingir, caso algum dos dois optasse pelo voo solo.

    Contudo, com o tempo, o companheirismo se transformou em cobrança e em uma nova prisão. “Um relacionamento tem que ser uma via de mão dupla. No nosso, só os desejos dele valiam, eu não vivia a minha vida”, conta. O casal se distanciou, as brigas tomaram conta da rotina e Fernanda procurou ajuda na terapia, para tentar entender o que teria causado tamanho desentendimento entre os dois. No início deste ano, saiu o divórcio.

    O casamento se foi, mas a experiência de vida ficou marcada para sempre. Mesmo com tantos conflitos, será que valeu a pena? “Quando as duas pessoas se dão bem, é muito bom ter alguém para poder contar quando você precisa”, diz Fernanda. Ainda assim, ela é categórica: não quer mais saber de casamento tão cedo. “A palavra casar pesa muito. Você pode até estar morando com uma pessoa há um tempo, mas, quando casa, parece que você está com ela por obrigação.”

     

    Juntar dinheiro para morar junto

    A publicitária Viviane Toraci e o contador Pablo Alonso se conheceram na adolescência. Nos fins de semana, os dois se encontravam no Shopping Recife, no extinto bar Depois do escuro, nas Graças. Já havia uma paquera quando decidiram namorar na festa de 15 anos dela, dia 24 de outubro. “A partir do momento que trocamos o primeio beijo, já foi estabelecido um compromisso”, recorda Viviane. Ela e as irmãs até brincavam com Pablo, dizendo para ele tomar cuidado com a maldição das Toraci. “Uma das minhas quatro irmãs casou com o primeiro namorado. Minha mãe, também”, diverte-se Viviane.

    No ano seguinte, já estudavam na mesma escola. Esse detalhe facilitava ainda mais o contato intenso. “No nosso primeiro aniversário de namoro, ele me deu uma aliança de compromisso”. Pablo fazia propostas improváveis para Vivi. “Tipo casar e morar no quarto dele. Mas eu sou de planejar cada passo da minha vida”. Namoraram por nove anos. No dia que foram ao cartório marcar a data do casório, uma coincidência. “A única disponível era24 de outubro, dia que eu completaria 24 anos”, conta a moça.

    Em outubro, eles completam nove anos de casados. “Desde os 16 anos, eu dava aulas de balé para juntar dinheiro e morar com Pablo. Gastava só o dinheiro da mesada para ter uma reserva quando acabasse a faculdade”. A primeira iniciativa deles, ao concluir a graduação, foi procurar um apartamento. “O nascimento da nossa filha, Júlia, de um ano e oito meses, também foi bastante pensado. Acredito que o compromisso, tão cedo, nos fez amadurecer e conduzir cada fase da relação de maneira ranquila”, conclui Viviane.

     

    Planejar é preciso

    A advogada Nelma Lúcia Moura, especialista em direitos de família, alerta que manter os pés no chão é essencial para garantir o sucesso de uma união, tenham os noivos a idade que tiverem. Para ela, algumas características dos casais mais jovens, como impulsividade e imaturidade, podem ser as responsáveis pelo grande número de divórcios entre os mais novos. “Hoje, a instituição do casamento não está sendo levada a sério”, argumenta. “A pessoa casa já pensando em se separar, caso não dê certo.”

    De 10 pedidos de divórcio que recebe, Nelma Moura calcula que quatro envolvem casais onde os noivos têm menos de 25 anos. Mas isso é suficiente para afirmar que a pouca idade é um fator determinante para o insucesso do casamento? Novamente, a resposta vai depender de como cada um encara o desafio. “Há pessoas mais jovens que veem o casamento como uma instituição familiar”, defende a advogada. O segredo para um casamento feliz, na visão de Nelma, é unir raízes familiares bem estruturadas com religiosidade e garra. “Se os dois vêm de uma família segura, eles irão querer preservar essa segurança no casamento deles”, acredita.

    Também especializada em direito de família, a advogada Regina Teixeira Bonotto defende um outro ponto de vista. Para ela, hoje em dia o maior número de divórcios envolve pessoas com mais de 20 anos de casamento. Enquanto casais mais antigos dissolvem a união para recuperar o tempo perdido, o casamento entre os mais novos acaba, muitas vezes, pela inabilidade de lidar com tantas mudanças ao mesmo tempo – especialmente quando essas mudanças envolvem cuidar de uma criança. “O homem demora a cair em si em relação a essa nova vida e às responsabilidades do casamento”, completa Regina.

     

    Matéria publicada no Jornal Correio Braziliense em agosto/2010