• 19 fev 17

Casamento com a família

Casamento é um pacote completo, as famílias de ambos vem junto!

Por: Olga Tessari
  • Casamento com a família

    O casamento é um Pacote Completo

     

    O casamento também é com a família, não apenas com o(a) parceiro(a).

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Ah, se relacionamento fosse só o casal… É, mas tem a família dele!

    Relacionamento é como viajar por um país estrangeiro e desconhecido – é preciso entender os novos costumes, a nova língua e valores diferentes. Mas, como se já não bastassem você e ele para armar a saborosa desordem no exercício da comunicação, ainda existem aqueles parentes do parceiro que grudam como chiclete e insistem em fazer parte da nova família. No começo, você aceita e acha graça, até sentir a pedra no sapato. Eles começam a meter o nariz onde não são chamados, ou, ainda mais abusados, fazem questão de distribuir alfinetadas. Sabe aquela velha história de que quem casa também leva a família do amado de brinde? É por aí mesmo, mas, convenhamos, tudo tem limite. Ainda mais quando o que está em pauta é o seu relacionamento.

    A professora Simone Miranda e a estudante Mayara Carrion nem precisaram esperar até o casamento para lidarem com os parentes xeretas dos respectivos parceiros. No caso de Simone, assim que ela ficou noiva, a sogra logo fez questão de anunciar aos quatro ventos que era contra a união. “Sempre rola aquele ciúme do tipo ‘ela não é boa o suficiente para o meu filho'”, conta Simone, que fez a sogra engolir o casamento.

    O ideal é estar próxima aos parentes, mantendo os limites de ambas as partes. Esse é justamente o grande desafio dos casais recém-casados, o de colocar freios de uma maneira educada e ponderada, sem agressões.

    Já com Mayara Carrion, que está a duas semanas de se casar, foi diferente. Na época da escolha do apartamento, dos convites e na organização da festa, a sogra opinava demais e colocava defeito em quase tudo. “Tive que conversar com ela e deixei claro para todo mundo que não queria ninguém com dedo na minha relação. Casal é feito de duas pessoas e ponto”, garante a estudante. A moça conseguiu o que queria: mora a 40 minutos da família do futuro marido. “Já basta a família inteira – tios, primos, sobrinhos, pais – serem vizinhos uns dos outros. Tem muita fofoca maldosa rolando solta!”, entrega.

     

    Fogo cruzado

    Família, diferenças culturais, sociais, de interesses e outras tantas que a gente percebe só pela convivência figuram como grandes motivos que levam ao fim de uma relação, ainda mais se o casal se deixar levar pela falsa crença de que “quando casar, sara”.

    Não é bem assim.

    Diferenças existem e vão continuar existindo, não se iluda achando que conseguirá transformar seu marido em outra pessoa e fazê-lo ser mais ambicioso, ou simplesmente recolher as cuecas do chão, tirar a toalha molhada da cama ou ajudar nas tarefas de casa de um dia para o outro. E, se necessário for, a família certamente colocará lenha na fogueira, porque vai defender os valores, hábitos e costumes próprios – e não os seus.

    “As pessoas que esperam uma companhia perfeita e ideal se frustram ao se depararem com uma ‘pessoa real’, porque as diferenças sempre existem e elas costumam ser vistas como falhas”, explica a psicóloga Karen Camargo. A psicóloga e psicoterapeuta Olga Inês Tessari vai ainda mais fundo ao comentar sobre o assunto: “Os opostos se atraem, mas dificilmente ficam juntos”. Segundo ela, as diferenças podem gerar conflitos, mágoas e até raiva se não forem bem administradas. Do contrário, podem até se tornarem um delicioso tempero na relação.

    Portanto, se você não colocar as diferenças na balança e pesar seus prós e contras, é possível que você acabe se decepcionando. Cristiane Motta, artista plástica, pensa assim. Para ela, as diferenças têm que ser pequenas o bastante para poderem ser superadas, senão não vale a pena casar para ficar sofrendo mais tarde com as disparidades que você não conseguiu contornar.

    Mayara Carrion ainda não se casou, mas já mora com o parceiro e sente na pele a outra educação do rapaz. Nós, mulheres, ficamos tão radiantes que nem nos damos conta de que o namorado está incluído num pacote – a família e todo o background de criação.

    A estudante só se deu conta de alguns hábitos do companheiro quando se mudou para o novo apartamento. Enquanto a moça cresceu em São Paulo, cidade grande, com pais que investiram pesado no seu futuro, o “namorido” foi criado em cidade pequena por uma família muito simples, que não via muita importância nos estudos.

    “Ele se tornou, então, uma pessoa cômoda, desorganizada, sem planos para o futuro”, conta Mayara, que, ao contrário, tem metas, ambições e uma visão de mundo mais ampla. “Somos dois extremos e acho que isso é o que mais nos afeta”, desabafa. “Mas, acredito que sempre aprendemos algo com as diferenças e penso que uma relação nunca acaba por conta delas, e sim porque o casal permitiu”, completa.

    Lidar com as diferenças do companheiro já não é fácil, mas dá para complicar ainda mais. Na contramão do ditado que diz “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, a família dele pode atropelar o seu relacionamento. Raquel Garcia, secretária executiva, já engoliu muito sapo com a família do marido. A sogra, a cunhada e o cunhado não se conformaram com o casamento e faziam de tudo para impedi-lo, tanto através de palavras como de atitudes.

    “Ainda bem que a família dele não mora na mesma cidade, senão eu nem teria me casado! Uma família daquelas levaria a relação por água abaixo”, alivia-se Raquel.

    O pior é quando o marido não faz nada, mesmo vendo a saia justa em que a família dele está colocando a esposa. Simone Miranda, casada há oito anos, teve que ouvir, e muito, as besteiras da sogra – sem o marido tomar nenhuma atitude – até começar a acertar os ponteiros com ela, sozinha.

    “As pessoas tendem a defender os seus próprios valores, a forma como elas foram criadas e educadas. Meu marido não me defenderia em detrimento da mãe. Ele nunca disse um ‘ai’ para ela”, conta Simone, um tanto indignada.

     

    Quem casa quer casa

    Nada mais verdadeiro do que essa pílula da sabedoria popular – “quem casa, quer casa”. Não é que a família não seja importante e deva ser esquecida pelos pombinhos. A psicóloga Olga Tessari explica que ela é, sim, essencial, porque é um núcleo de afeto, compreensão, amor e compartilhamento.

    Mas, quando se está formando uma nova família, cabe manter uma distância segura e saudável da anterior, porque proximidade demais atrapalha a nova trajetória a ser seguida pelo casal e as novas regras que serão estabelecidas.

    Para a socióloga Mirian Goldenberg, o problema é que, na nossa cultura, o cordão umbilical demora muito tempo para ser rompido – e às vezes nunca é. “Aqui no Brasil, a família é colocada num patamar quase que divino. Ela é o paraíso, o porto-seguro, e praticamente dona do indivíduo”, analisa Mirian.

    Sendo assim, somos culturalmente acostumados a casar com os parentes do parceiro. E, se existe sogra jararaca, é porque assim permitimos, damos “intimidade” para a interferência indesejada.

    É por isso que a artista plástica Cristiane Motta acredita em “proximidade demais, privacidade de menos”. “Muita intimidade estraga, porque a família se sente no direito de se intrometer, assim como alguns amigos também. Não dou essa intimidade a ninguém – e nem quero!”, afirma.

    Mayara Carrion tenta demonstrar pelo menos um pouco de interesse, contando como está sendo morar num país diferente e às vezes até convida os familiares para almoçarem em casa. Mas, admite: “Sempre fui muito independente, acho momentos em família geralmente muito chatos”.

    Quanto menos, melhor. Seria essa a regra? Para Cristiane Motta, sim. “Visitas esporádicas são perfeitas! Mensais, bimestrais, semestrais ou até mesmo anuais em alguns casos ajudam a manter a relação com a família em perfeito estado”, garante a artista plástica.

    Goste você ou não dos almoços de domingo na casa da sogra ou daquelas festinhas cheias de tios, tias e de primos que não se sabe nem em que grau de parentesco, é importante ter boas relações com a família do parceiro. Você não precisa se tornar a melhor amiga deles, mas também não vá se ausentar em todos os eventos familiares.

    Converse com o seu amado sobre isso e defina com ele as confraternizações fundamentais e aquelas que vocês podem fingir que esqueceram. Se ele quiser ir e você, ficar, que seja – não arrume confusão por conta disso. Se decidir acompanhá-lo, arme o sorriso, suba no salto, deixe a simpatia florescer e, por que não, divirta-se. “Comparecer a tais eventos é muito importante para a sobrevivência familiar”, revela a psicóloga Olga Tessari

     

    Só você e ele

    A solução contra os parentes intrometidos é não é gritar, espernear, se trancafiar numa masmorra com o marido ou arrumar as malas e sair de casa. O mais importante é fazer com que te respeitem e não é se descabelando, saindo do controle, que você vai conseguir isso.

    Os limites podem ser colocados de forma muito suave, mas firme. Se você não gosta que a sogra ligue para a sua casa domingo às 8h da manhã, converse primeiro com o seu marido e depois estabeleçam os limites de forma educada e afetiva.

    Atenção, limites e não exclusão. Jogar o marido contra a própria família e torná-la uma rival não irá resolver nada, sem contar que o feitiço pode acabar virando contra a feiticeira – vai que ele escolhe ficar do lado da família? “O ideal é estar próxima aos parentes, mantendo os limites de ambas as partes.

    Esse é justamente o grande desafio dos casais recém-casados, o de colocar freios de uma maneira educada e ponderada, sem agressões”, ressalta Karen Camargo. E com tolerância!

    Além do mais, leve em consideração que a família dele não está sempre errada em todas as atitudes e colocações. Vez ou outra pode ser essencial você ouvir o que ela tem a dizer. Afinal, foi com ela que o seu marido passou a maior parte da vida até agora.

    Nada impede, também, que você recorra à família dele em busca de orientação naqueles dias em que nem muito chamego parece dar jeito no clima tenso entre vocês. “Isso ajuda até a fortalecer os vínculos”, garante a psicóloga Olga Tessari.

    A artista plástica Cristina Motta tem uma relação muito formal com a família do marido, mas aprendeu a gostar dela. “Eles são muito diferentes, mas não julgo mais. Hoje, vejo que o diferente não é necessariamente ruim, apenas é diferente”, ensina a artista plástica.

    Lembra que casar é como desvendar um país desconhecido? Então, pena que não existe um guia turístico com dicas para navegar por esse ambiente totalmente novo e desafiador sem perder a cabeça, ou, pior, o namorado ou marido. Mas, a graça é essa mesma: tentar, errar e acertar em seguida. Não se esqueça: na base da diplomacia, sempre.

     

    Matéria publicada no site Bolsa de Mulher por Daniela Pessoa em 04/08/2007