• 01 fev 17

Independência da mulher

O que falta para que ela consiga ter independência plena em todos os sentidos?

Por: Olga Tessari
  • Independência da mulher

     

    A mulher e a independência: ela continua dependente emocionalmente do homem

    Independência da mulher – Como ela pode conquistar a sua independência?  Mulher ainda é o  sexo “frágil”?

    A psicóloga Olga Tessari fala sobre o tema mulheres solteiras, abordando as fissuras no relacionamento homem-mulher, provocados pelas transformações na sociedade, em virtude do avanço do “sexo frágil”.

    Confira os principais trechos da conversa feita por correio eletrônico.

    (*direito autoral das respostas © Dra Olga Inês Tessari)

     

    Luciano Duarte – A que se deve o aumento de mulheres solteiras?
    Olga Tessari – Até há pouco tempo atrás, o casamento era, digamos assim, uma exigência, uma imposição social: nenhuma mulher queria ficar para “titia”, ser chamada de solteirona, sentir-se “marginalizada” no seu meio. Além da pressão social, um dos motivos fortes para o casamento era a necessidade de sobrevivência da mulher: ela buscava alguém que a pudesse sustentar e, em troca, cuidava da casa, do marido e dos filhos, era a “rainha do lar”, o trabalho para ela só podia ser um hobby, um passatempo, o salário baixo não permitia o seu próprio sustento. Atualmente, é possível o sustento próprio com o salário recebido, embora pesquisas mostrem que, em muitas empresas, o salário da mulher ainda costuma ser mais baixo do que o do homem na mesma função.

     

    Luciano Duarte – Então, hoje essa pressão diminuiu?
    Olga Tessari – Se até há pouco tempo atrás as mulheres sentiam-se pressionadas a casar, hoje em dia elas tem a opção de permanecerem solteiras se assim o desejarem, embora no seu íntimo ainda sonhem com o casamento e com o “príncipe encantado” (no comércio, o segmento voltado para noivas continua com um alto faturamento). A mulher solteira de hoje está, aos poucos, aprendendo a valorizar-se como pessoa e, como tem condições de prover o seu próprio sustento, pode optar por ficar solteira. O casamento para ela, hoje em dia, tem que ser com uma pessoa que ela ame acima de tudo, que a respeite como pessoa e que queira dividir responsabilidades e obrigações, tornando-se seu cúmplice.

     

    Luciano Duarte – Essa independência pode assustar os homens e afastá-los das mulheres? Isso pode dificultar numa tentativa de relacionamento?
    Olga Tessari – Os homens estão assustados justamente por não saberem como lidar com esta nova mulher, eles ainda mantém o ranço machista, cujo modelo de mulher é a subserviente, certamente o modelo que sua mãe lhes passou: infelizmente as mães continuam a educar os seus filhos homens de forma diferenciada das filhas mulheres. É claro que eles se assustam com esta mulher independente, segura de si, que não busca proteção, mas cumplicidade, pois não sabem como agir diante desta nova mulher. Homens tímidos têm mais dificuldade de se aproximar delas, assim como o machista vê nela uma mulher “fácil”, com a qual não deve ter compromisso (mais uma vez o ranço machista de que a mulher para casar deve ser subserviente, pura e casta).

     

    Luciano Duarte – Muitas são chefes de família, sustentando a casa e os filhos, substituindo o que antes era papel do homem. O que representa isso e qual a conseqüência para os filhos dessa mudança?
    Olga Tessari – As mulheres, hoje em dia, não se sujeitam mais à “ditadura masculina” do marido, embora continuem educando seus filhos homens da mesma forma. Quem mais sofre com a falta do pai é o menino, porque ele necessita de um modelo masculino para seguir, embora todos os filhos (meninos ou meninas) sintam a falta da figura masculina do pai. A quantidade de obrigações da mulher, mantendo os dois papéis, a sobrecarrega em demasia, não há muito tempo disponível para conviver com os filhos, trocar idéias, saber do dia a dia deles. Além disso, por não poder estar mais ao lado dos filhos, a mãe acaba por satisfazer as vontades deles, numa tentativa de compensar a falta de tempo, para diminuir sua culpa, o que pode propiciar a formação de jovens sem limites ou com limites pouco definidos, jovens rebeldes.

     

    Luciano Duarte – Ainda há muita resistência machista? Como superar isso?
    Olga Tessari – A resistência machista ainda existe por causa da educação dada aos homens. E é esta educação que faz com que eles ainda continuem “machistas”, dependentes das mulheres nos cuidados da casa, de suas roupas e até de sua alimentação. Este é um dos motivos porque os homens não conseguem ainda ficar sozinhos: quando o casamento acaba, eles logo procuram um novo casamento ou contratam uma espécie de governanta, uma “faz tudo” para substituir a esposa.

     

    Luciano Duarte – Para a doutora, qual barreira ainda falta ser transposta para a mulher conquistar sua independência plena?
    Olga Tessari – A mulher ainda continua dependente emocionalmente do homem, ela ainda deseja sentir-se protegida por ele, deixa sua vida de lado por um homem que ama. Ao se apaixonar, ela deve evitar o impulso inicial de largar tudo por causa dele, para ficar somente com ele, vivendo em função dele. O seu parceiro deve aceitá-la como ela é, ela deve manter a sua vida pessoal, seus amigos, seu trabalho e aproximar seu parceiro dos seus amigos, assim como fazer parte do grupo de amigos dele. Essa é a fórmula para a manutenção de um casamento até que a morte os separe. E, se por acaso o casamento não der certo, ela pode sair dele de cabeça erguida, pois é capaz de cuidar de si mesma, sustentar-se, vai continuar o convívio com seus amigos e trabalhando/crescendo em sua carreira. O fato de deixar sua vida de lado e viver em função do homem amado é um dos fortes motivos que levam as mulheres a permanecerem sozinhas depois de um relacionamento falido. Elas aprendem, muitas vezes a duras penas, a importância de ter sua vida própria e de que um relacionamento deve vir para somar, compartilhar, não para anular-se!

     

    Matéria publicada no site Circuito Regional por Luciano Duarte em 12/03/2007