• 26 fev 17

Compulsão por compras

O mal-estar interior é falsamente diminuído com o consumo excessivo e desnecessário.

Por: Olga Tessari
  • Compulsão por compras revela doença

     

    A compulsão por compras pode encobrir necessidades afetivas

     

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

     

    Compulsão por compras? As ofertas nas lojas são tentadoras. Pagamento facilitado, só para 2008, em dezenas de vezes sem juros, bastando apresentar um comprovante de residência, RG e CPF que a compra é efetuada na hora.

    Shoppings repletos de placas 70% OFF, ou seja, com desconto, atraindo as pessoas que estão com alguma verba a mais, principalmente por conta do décimo terceiro, o que aumenta a movimentação financeira, o consumo, as vendas, ficando bom para o comércio, que lucra bem.

    Ocorre que, quando não há controle, essa busca desenfreada para comprar algum produto só para mostrar que possui determinado objetivo, satisfazendo alguma frustração com aquilo, pode apontar para um problema chamado consumo compulsivo.

    Para o psicólogo Arthur Scarpato, o consumidor compulsivo é aquele que compra mais do que necessita, para satisfazer com o ato da compra e de ter um objeto. “Quando olhamos mais perto vemos que estas pessoas buscam um alívio para sensações de carência e ansiedade, e o mal-estar é provisoriamente apaziguado com o comportamento de consumo. Porém, como o comprar não é o que de fato a pessoa precisa, ela estará sempre comprando, num processo que tende ao infinito”, explica.

    Para a psicóloga e psicoterapeuta Olga Tessari, uma coisa é a pessoa ter dívidas por ter perdido o emprego ou alguma outra intempérie deste tipo. “Outra coisa, bem diferente, é aquela pessoa que contrai dívidas acreditando ser capaz de pagá-las no futuro, mesmo não tendo dinheiro disponível no momento para isso e nem sabendo de onde virá o dinheiro para tanto”, considera.

    Olga Tessari indica ainda que uma pessoa está nesse quadro a partir do instante em que ela “compra por comprar” ou porque “o preço estava bom”, sem que tenha alguma utilidade para se servir daquilo. “Ela não se preocupa como vai pagar, se tem dinheiro disponível para isso, vive comprando qualquer coisa e fica impaciente e ansiosa se passa algum tempo sem comprar nada. O ato de comprar parece ‘aliviar’ a sua ansiedade”, diz. “A insatisfação e a infelicidade estão muito presentes porque a alegria da compra se esgota rapidamente e a pessoa logo sente necessidade de buscar um novo alívio no consumo, como um drogado atrás da promessa de prazer na próxima dose”, complementa Scarpato.

     

    Não tenho controle?

    A pessoa com essa compulsividade em comprar nota o problema apenas quando não tem mais como conseguir dinheiro e seus gastos já estão sendo cobrados de forma tal que todos à sua volta questionem seu comportamento. Isso praticamente a obriga a rever suas contas. “Ela percebe seu problema quando a sua compulsão já ultrapassou todos os limites do seu crédito e, mesmo assim, muitas vezes, ela só admite o seu problema quando seus familiares ou companheiro(a) a pressionam ou a ameaçam de separação, de expulsá-la do convívio ou de denunciá-la”, afirma Olga Tessari.

    A psicóloga aponta que uma forma de ajudar é mostrar a complexidade do problema e como isso tem impedido que o alívio acreditado não deve chegar, pois o ciclo da dívida nunca chega. “Muitas vezes a pessoa admite o problema, mas não lhe dá o devido valor”, alerta.

    De acordo com ela, o consumo compulsivo é um estado de sofrimento psicológico que necessita atenção e cuidado profissional, pois as pessoas que possuem esse mal têm problemas afetivos compensados pela compra. “É como se a pessoa tivesse um abismo de carências que ela tenta preencher com bolsas, carros, jóias, relógios, etc., mas que nunca satisfazem porque na verdade não é isto que está faltando. Parar e poder olhar para o vazio interior, para as suas reais necessidades é o que vai poder ajudar esta pessoa a interromper este ciclo perpétuo de sofrimento e ilusão”, finaliza Olga Tessari.

     

    Matéria publicada no site do Padre Marcelo por Rodrigo Herrero em 05/12/2007