• 25 fev 17

A cultura do ficar nos relacionamentos

Uma nova forma de relacionamento? É saudável ou não? Entenda.

Por: Olga Tessari
  • A cultura do ficar

     

    Ficar é uma nova forma de cultura ao se relacionar?

    As mudanças ocorrem e atualmente o “ficar”, marca registrada de uma relação superficial, está disseminado e vai além das fronteiras da adolescência. Jovens adultos e, por vezes, não tão jovens, rendem-se a essa prática. O que pretendem? O que encontram?

    Entrevista com © Dra Olga Inês Tessari

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    “Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure.”
    (Vinícius de Moraes)

    Qualquer dia da semana, a qualquer horário, nas escolas, nos clubes, nos shoppings, nas baladas de todos os tipos e acreditem até mesmo no transporte coletivo, observamos casais que não satisfeitos com o flerte , um namorico à moda antiga, entregam-se a beijos e carícias com pessoas que muitas vezes estão vendo pela primeira vez e hora.

    O Prof. Dr. Sandro Caramaschi da Universidade Estadual de São Paulo diz “ficar não é uma mudança comportamental isolada, e sim o reflexo de uma sociedade composta por pessoas mais centradas em si mesmas”. Acrescenta que “ficar” pode ter a duração de um beijo, uma noite, algumas semanas mas, sem telefonemas ou confirmação de encontros.

    Segundo a psiquiatra e psicanalista Simone Sotto Mayor, “numa cultura onde o transitório e o descartável cada vez têm mais lugar, o “ficar” parece representar o máximo possível de uma relação provisória. Nesse caso os envolvidos parecem estar interessados apenas no bônus da experiência sensorial. Os ônus seriam os do compromisso.”

    O psicoterapeuta de adolescentes Içami Tiba sinaliza que essas relações superficiais, relações “fáceis”, são indicativas de que a tolerância está diminuindo assim como a capacidade de superar as frustrações.

    Os jovens dizem que trata-se de uma forma de conhecimento. Algumas vantagens apontadas: conhecer muitas pessoas diferentes , possibilidade de avaliar um maior número de parceiros e a ausência de compromisso, diz a psicóloga Olga Tessari.

    Ora, namorando você também conhece pessoas e nada limita o número de namoros possíveis para uma pessoa, já quanto ao compromisso o mesmo não acontece , pois, em nossa cultura o namoro supõe fidelidade. No “ficar” a frase “se aparecer alguém melhor … estamos liberados” se aplica sem discussão, já no namoro por existir um vínculo afetivo, se o rompimento for unilateral provocará sofrimento. Viver uma relação sob a ótica do “ficar” nos remete a valores imputados pela sociedade de consumo, assim tudo é descartável, transitório e sempre há melhor.

    Sem sofrimento, sem dor, sem compromisso, sem vínculo, mas também sem afeto, sem intimidade emocional, sem sentimentos profundos.

     

    Matéria publicada no site Consulado da Mulher por Fátima Clementi, voluntária do Conselho Editorial de Joinville em 30/04/2006